Pronomes neutros: elu, linguagem neutra e como perguntar
As palavras que as pessoas usam para falar de você quando não é você quem está falando. Como funcionam em português, como perguntar e o que é elu.
O que são pronomes
Pronomes são as palavras curtas que ficam no lugar de um nome quando todo mundo já sabe de quem se está falando: ela, ele, dela, dele. Os que carregam gênero são os de terceira pessoa, ou seja, justamente as palavras que as outras pessoas usam para falar de você.
Em português, o gênero não mora só no pronome. Artigos, substantivos, adjetivos e contrações como dele e dela também têm gênero, e o masculino funciona como o genérico padrão. Por isso, falar de alguém sem marcar masculino ou feminino mexe com a frase inteira, e não com uma palavra só. O glossário explica os conjuntos de pronomes com mais detalhes.
Os pronomes dizem como se referir a alguém. Não dizem qual é o gênero, a história ou o corpo dessa pessoa. Quem usa ele pode ser um homem trans, uma pessoa não binária ou um homem cis, e o pronome não diz qual dos três. Nem precisa.
Conjuntos de pronomes
Por que as pessoas dizem os seus pronomes
Não dá para saber os pronomes de alguém só de olhar, e é exatamente por isso que esse hábito existe. Dizer os seus quando você se apresenta evita que alguém tenha que adivinhar, e quando todo mundo na roda faz isso, ninguém fica em evidência por fazer.
Dizer os pronomes deve continuar sendo um convite. Quem está questionando o próprio gênero, quem não está fora do armário no trabalho ou quem simplesmente não está a fim pode pular essa parte, e uma boa rodada de apresentações deixa espaço para isso. Os centros LGBTQ de universidades que escrevem orientações justamente para essa situação dizem o mesmo: convide, nunca obrigue.
E são pronomes, não «pronomes preferidos». O guia de referência da GLAAD observa que esse qualificativo fazia parecer que pessoas cis têm pronomes, enquanto pessoas trans têm preferências.
Como perguntar
Diga os seus e depois pergunte: «Sou Dani, uso elu/delu. E você?» Se as apresentações já foram feitas: «Quais pronomes você usa?» O roteiro é só isso. Fica meio estranho por um segundo, e um palpite errado fica estranho por muito mais tempo.
Pergunte uma vez e depois guarde a resposta. Se esquecer, «Pode me lembrar dos seus pronomes?» não tem problema nenhum, e é muito melhor do que passar a noite inteira fugindo dos pronomes.
Se ainda não deu para perguntar, use o nome da pessoa. Em português também dá para reformular com a linguagem inclusiva, que troca a palavra marcada por uma sem gênero: «a pessoa», «quem». O masculino é o genérico da gramática, mas «ele», usado para uma pessoa específica, é um pronome como outro qualquer, e não uma saída neutra.
Quando você erra
Vai acontecer, em algum momento. Corrija a palavra e siga em frente: «ela, desculpa», e o resto da frase. Em português o deslize pode estar num adjetivo tanto quanto no pronome, e a correção é a mesma: «cansada, aliás». Um pedido de desculpas comprido transforma o seu deslize em trabalho para a outra pessoa. O verbete do glossário sobre misgendering explica por quê, e, se é com você que erram, esta resposta traz frases para esse momento.
Elu, delu, nelu: o sistema elu
Um guia bastante compartilhado é o «Manual para o uso da linguagem neutra em Língua Portuguesa», de Gioni Caê, lançado em 2022 pela Frente Trans Unileira, na universidade UNILA. Ele trata como ferramentas separadas a linguagem neutra, que muda as terminações das palavras, e a linguagem inclusiva, que reformula a frase para evitar o gênero.
O manual apresenta vários sistemas de pronomes. O sistema elu (elu, delu, nelu, aquelu) é, segundo o texto, «talvez o mais prático e mais utilizado», porque funciona na fala e na escrita: elu chegou, o casaco é delu, confio nelu.
Há alternativas: o sistema ile (ile, dile), que se afasta mais das formas binárias; o ilu (ilu, dilu), do qual surgiu o elu; e o el (el, del). Nenhum deles substitui a pergunta: se alguém usa elu, ile ou el, use as formas que essa pessoa usa.
A terminação -e, e por que evitar x e @
Como em português o gênero atravessa a frase, o pronome costuma vir acompanhado de terminações. No manual, substantivos e adjetivos ganham -e: filhe, amigue, linde. Os artigos definidos viram ê ou le (no plural, ês ou les), ou simplesmente somem; os indefinidos viram ume e umes. Numa frase: «Elu está cansade.» Todes segue a mesma lógica.
Formas escritas mais antigas, como amigxs e amig@s, ainda aparecem. O manual desaconselha as duas: não dá para pronunciá-las, e elas bloqueiam os leitores de tela.
A linguagem inclusiva é o outro caminho: sem formas novas, a frase é reescrita para não precisar de gênero. Em vez de «os alunos», «quem estuda aqui»; em vez de «ele é muito dedicado», «a pessoa é muito dedicada». Como não cria formas novas, ela fica fora das proibições de novas flexões de gênero.
Todes, proibições e o STF
A política andou mais rápido do que a gramática. Em julho de 2021, o Museu da Língua Portuguesa usou a palavra todes numa postagem e foi atacado pelo secretário de Cultura, Mario Frias. Em outubro de 2021, uma portaria federal, a Portaria nº 604, vetou a linguagem neutra em projetos financiados pela Lei Rouanet.
Estados e municípios aprovaram leis proibindo a linguagem neutra nas escolas, e o Supremo Tribunal Federal (STF) vem derrubando essas proibições, com o entendimento de que só a União pode legislar sobre o tema: por unanimidade no caso da lei de Rondônia, em fevereiro de 2023; depois nos casos de Porto Alegre, Muriaé e São Gonçalo, em abril de 2025; e nos de Águas Lindas de Goiás e Ibirité, numa decisão noticiada em março de 2026.
No plano federal, em novembro de 2025, o presidente Lula sancionou uma lei nacional de linguagem simples que veda «novas formas de flexão de gênero e de número» em documentos e eventos oficiais de toda a administração pública, segundo o site de notícias Diadorim. A Wikipédia em português registra críticas de membros da Academia Brasileira de Letras à linguagem neutra.
Para o dia a dia, o conselho continua o mesmo: pergunte, e use as palavras que a pessoa usa para si.
Os conjuntos em inglês que você vai ver na internet
Em perfis e bios, você também vai encontrar os conjuntos de pronomes do inglês. Cada um tem uma página própria, com as formas e frases de exemplo em inglês:
He/him: he, him, his, his, himself.
She/her: she, her, her, hers, herself.
They/them: they, them, their, theirs, themself ou themselves, com verbos no plural.
She/they e he/they: dois conjuntos, os dois certos para a pessoa.
Xe/xem: xe, xem, xyr, xyrs, xemself.
Ze/zir: ze, zir, zir, zirs, zirself.
Ze/hir: ze, hir, hir, hirs, hirself.
Fae/faer: fae, faer, faer, faers, faerself.
E/em (Spivak): e, em, eir, eirs, emself.
It/its: it, it, its, its, itself, e só para quem pede.
Qualquer pronome (any pronouns): mais de um conjunto serve para essa pessoa.
Sem pronomes (no pronouns): use o nome.
Além desses, existem muitos outros neopronomes e xenopronomes de circulação menor, e os pronomes espelho, em que você usa para alguém os mesmos pronomes que usa para si.
Quanto cada conjunto em inglês é usado
A fonte regular mais detalhada que conhecemos é o Gender Census, uma pesquisa aberta a qualquer pessoa cujo gênero não se encaixa direitinho no binário. Em 2025, 43.096 pessoas participaram. They/them foi escolhido por 75,0%, he/him por 40,6%, she/her por 34,1% e it/its por 22,8%, e 14,4% preferiram evitar pronomes e usar o nome. Entre os neopronomes da lista, xe/xem teve 8,8%, fae/faer 6,2% e ze/zir 5,7%. Era possível marcar mais de uma opção.
They/them é um recurso comum em inglês quando ainda não se sabe os pronomes de alguém, e serve bem para muita gente, mas não é neutro para todo mundo: no Gender Census de 2025, um quarto de quem respondeu não escolheu they.
Leia esses números como o retrato de um público específico. O autor da pesquisa diz com todas as letras que as pessoas chegam até ela pelas redes sociais e são, em sua esmagadora maioria, jovens e dos Estados Unidos. Os dados mostram que esses conjuntos são usados de verdade. Não mostram o quanto cada um é comum onde você mora.
Pratique em voz alta
Conhecer um conjunto e dizê-lo numa frase são habilidades diferentes. A página de prática de pronomes preenche frases do dia a dia com um nome e com elu, ela, ele ou só o nome, já com as terminações certas, para você ler em voz alta até as palavras novas pararem de travar.
Perguntas que as pessoas fazem
O que é pronome neutro?
Um pronome que não marca masculino nem feminino. Em português, o sistema elu (elu, delu, nelu, aquelu) é o que o manual de linguagem neutra de Gioni Caê descreve como talvez o mais prático e mais utilizado. Também existem ile e el.
Como usar elu e delu?
Elu fica no lugar de ela ou ele, delu no lugar de dela ou dele, e nelu no lugar de nela ou nele. Substantivos e adjetivos costumam ganhar -e: elu está cansade, ume amigue. Na dúvida, pergunte à pessoa quais formas ela usa.
Como perguntar os pronomes de alguém?
Diga os seus primeiro e depois pergunte: «Uso ela/dela, e você?» Se esquecer mais tarde, pergunte de novo em vez de chutar.
A linguagem neutra é proibida no Brasil?
Depende do contexto. A Portaria nº 604, de 2021, vetou a linguagem neutra em projetos da Lei Rouanet, e, segundo o Diadorim, uma lei sancionada em novembro de 2025 veda novas flexões de gênero em documentos e eventos oficiais da administração pública. Já o STF derrubou proibições nas escolas, como as de Rondônia, Porto Alegre e Ibirité, por entender que só a União pode legislar sobre o tema.
Por que não escrever amigxs ou amig@s?
Porque não dá para ler essas formas em voz alta, e porque elas bloqueiam os leitores de tela. O manual de Gioni Caê desaconselha as duas e usa a terminação -e, como em amigue.
Devo dizer «pronomes preferidos»?
Não. Basta dizer pronomes. A palavra preferidos dá a entender que a alternativa também seria aceitável.