Este é um guia para pessoas adultas trans e não binárias que estão decidindo o que assistir, e não um ranking. Para cada filme ou série você fica sabendo quem fez, o que é, por que pode importar para você, as críticas que recebeu e o que aparece na tela e talvez mereça um aviso prévio. Nada aqui entrega o final.
Escolhemos pela variedade, e não pelo prestígio: documentários e ficção, obras dos anos 1960 até hoje, e filmes e séries da Bélgica, do Brasil, do Canadá, do Chile, da Espanha, dos Estados Unidos, das Filipinas, da França, do Japão, do Paquistão e do Reino Unido. Mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias estão no centro de alguma obra aqui, e muitas pessoas racializadas também. Mantivemos ainda filmes famosos de que boa parte do público trans não gosta. Vão perguntar a você sobre eles, e saber por que foram criticados já é útil por si só.
Quando uma ficha diz que uma pessoa trans ou não binária escreveu, dirigiu, produziu ou atua em alguma obra, é porque essa pessoa disse isso publicamente, ou foi descrita assim numa entrevista ou num perfil citado nas fontes da ficha. Não deduzimos a identidade de ninguém a partir do trabalho, da aparência ou dos papéis. Quando alguém nunca falou sobre isso, não dizemos nada. Isso deixa lacunas, e preferimos as lacunas.
Cada ficha traz as suas próprias fontes. Não dizemos onde assistir a cada obra, porque isso muda a cada poucos meses. Os avisos de conteúdo vêm de críticas e descrições, e não de um levantamento cena a cena, então trate-os como ponto de partida, não como garantia. Os nomes e pronomes são os que as pessoas usam hoje, por isso créditos mais antigos podem trazer outro nome.
Documentários
Num documentário, quem segura a câmera sempre faz parte da história. Alguns destes filmes foram dirigidos por cineastas trans. Outros foram feitos por cineastas que não se descreveram como trans e que passaram anos com as pessoas que aparecem na tela, e alguns falam abertamente da tensão que isso cria. Cada ficha diz o que está documentado.
Se você só for assistir a uma coisa desta página, Disclosure é um bom começo: o filme dá nome a padrões que você vai reconhecer em quase tudo o que está aqui.
Southern Comfort (2001, documentário)
Quem fez: Dirigido, produzido, filmado e montado por Kate Davis, Estados Unidos. O protagonista, Robert Eads, era um homem trans, e o filme mostra também a companheira dele, Lola Cola, uma mulher trans, e a família escolhida que ele formou com amigos trans, entre eles Max e Cas.
Robert Eads era um homem trans que vivia nas colinas da Geórgia rural: barbudo, cachimbo na mão, orgulhoso de se dizer um hillbilly, um caipira das montanhas. Estava gravemente doente, com câncer, e tinha sido recusado por médicos que não queriam um paciente trans. Kate Davis filmou o último ano da vida dele.
Ao longo das estações, acompanhamos Eads enquanto se apaixona por Lola, passa tempo com a família escolhida que construiu, recebe visitas dos pais e do filho, e sonha em chegar à Southern Comfort Conference, em Atlanta, um grande encontro de pessoas trans.
Por que importa. É uma história de amor entre um homem trans e uma mulher trans, e um retrato de família escolhida no Sul rural dos Estados Unidos, duas coisas ainda raras na tela. Eads aceitou se expor publicamente pela primeira vez para este filme porque, como disse a Davis, se isso ajudasse um único outro homem trans a ir ao médico, já teria valido a pena. É também um registro duro do preço da discriminação médica.
Bom saber. Revendo o filme em 2026, o crítico Blake Peterson concordou com a escritora Sally Jane Black que falta ao filme raiva em nome de Eads: Davis se concentra em quem ele era, em vez de nomear os médicos que o recusaram. Peterson também aponta a tensão de ver a história dele apresentada por alguém de fora, com mais poder social. As próprias notas de produção de Davis dizem que várias das pessoas participantes não eram assumidas, o que limitou as filmagens na conferência.
Avisos de conteúdo: recusa de atendimento médico, doença terminal e morte, misgendering por parte da família, referências à Ku Klux Klan
Screaming Queens: The Riot at Compton's Cafeteria (2005, documentário)
Quem fez: Dirigido, escrito e produzido por Susan Stryker e Victor Silverman, em associação com a ITVS e a KQED para a televisão pública dos Estados Unidos. Stryker, historiadora e mulher trans, aparece na tela, e entre as pessoas entrevistadas estão mulheres trans que viviam no Tenderloin nos anos 1960, como Felicia Elizondo, Amanda St. Jaymes e Tamara Ching.
Numa noite de agosto de 1966, no bairro do Tenderloin, em San Francisco, a polícia entrou na Gene Compton's Cafeteria, um lugar aberto a noite toda onde se reuniam mulheres trans, drag queens e jovens michês de rua. Quando um policial agarrou uma das clientes, ela jogou o café no rosto dele e a cafeteria virou um tumulto. Aconteceu três anos antes de Stonewall, e quase caiu no esquecimento.
Décadas depois, a historiadora Susan Stryker encontrou um vestígio do episódio e foi atrás das pessoas que estiveram lá. O filme é construído a partir das entrevistas com elas, com um sargento da polícia, pastores de uma igreja do bairro e ativistas locais, e situa a revolta no contexto da pobreza da cidade, da renovação urbana e dos movimentos pelos direitos civis dos anos 1960.
Por que importa. Se você aprendeu que a história trans começa em Stonewall, este filme é a correção, contada em grande parte pelas próprias mulheres trans do Tenderloin. É curto, com menos de uma hora, e claramente feito para a TV pública, mas ajudou a devolver Compton's ao registro histórico. Também liga a sobrevivência trans ao trabalho, à moradia e ao policiamento, em vez de tratar a identidade como a história inteira.
Bom saber. A revolta quase não deixou rastros em papel. Não houve cobertura da imprensa na época, a noite exata não é conhecida, e segundo a NPR o único relato escrito que sobreviveu é um artigo curto de 1972 do ativista Raymond Broshears. O filme se apoia em memórias reunidas décadas depois, o que é ao mesmo tempo a sua força e o seu limite.
Avisos de conteúdo: assédio e violência policial, trabalho sexual, uso de drogas, pobreza
Bambi (2013, documentário)
Quem fez: Dirigido por Sébastien Lifshitz, França, em francês, um retrato de cerca de uma hora. A protagonista, Marie-Pierre Pruvot, conhecida no palco como Bambi, é uma das primeiras mulheres trans da França a fazer a transição e a vivê-la publicamente.
Marie-Pierre Pruvot nasceu em 1935 na Argélia francesa e sentia desde a infância que era uma menina, embora a obrigassem a viver como menino. Na adolescência, viu a artista trans Coccinelle no palco e decidiu viver como mulher. Com o nome de Bambi, tornou-se uma estrela dos cabarés de Paris, como o Le Carrousel, nos anos 1950 e 1960.
Depois, já com mais de 30 anos, voltou a estudar, tornou-se professora de francês e deu aula durante décadas numa escola nos arredores de Paris. Lifshitz se senta diante dela e a deixa contar. O filme ganhou o Teddy Award de melhor documentário no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2013.
Por que importa. Bambi atravessou décadas em que, como disse Lifshitz, as palavras para descrevê-la ainda não existiam, e conta a própria vida com um verdadeiro dom de contadora de histórias. É uma chance rara de ouvir uma mulher trans da geração mais velha descrever uma vida pública na Paris de meados do século e, depois, uma longa carreira comum e respeitada. Lembra que as mulheres trans daquela época tinham vidas inteiras, e não só escândalos.
Bom saber. A versão de 2013 tem menos de uma hora, e Lifshitz disse mais tarde que sentia que «não tinha ido até o fim» e que queria «reparar o filme». Uma versão de 90 minutos foi exibida no Canal+ em 2021. Qualquer uma das duas é essencialmente o depoimento de uma mulher, e essa é a sua força.
Avisos de conteúdo: hostilidade e rejeição na França de meados do século XX e na Argélia colonial, pressão na infância para viver como menino
Kumu Hina (2014, documentário)
Quem fez: Dirigido e produzido por Dean Hamer e Joe Wilson, Estados Unidos (Havaí), em inglês e havaiano, exibido no Independent Lens, da PBS, em 2015. Hinaleimoana Wong-Kalu, professora nativa havaiana e māhū, aparece nos créditos como haku moʻolelo (contadora de histórias) e narradora, e a cineasta nativa havaiana Connie M. Florez assina a coprodução.
Hinaleimoana Wong-Kalu, conhecida como Kumu (professora) Hina, é uma māhū nativa havaiana, palavra que a PBS descreve como designando quem encarna ao mesmo tempo o espírito masculino e o feminino. É diretora cultural de uma escola pública charter de língua havaiana em Honolulu.
O filme a acompanha enquanto ela usa a cultura tradicional para incentivar uma aluna, Hoʻonani, a assumir o seu lugar como líder do grupo de hula da escola, formado só por rapazes. Na vida pessoal, ela deseja amor e compromisso, e é casada com um homem tonganês. É um filme sutil e de observação, narrado com a própria voz de Hina.
Por que importa. Mostra um gênero fora das categorias ocidentais como algo de raízes profundas, com um lugar respeitado na sua própria cultura, e não como uma ideia nova que precisa de explicação. Hina não é apresentada como santa: a resenha do IndieWire elogiou o filme por mostrá-la corajosa e segura de si, mas também insegura, respeitada no trabalho e com dificuldades em casa. Mostra um lado do Havaí raramente visto na tela.
Bom saber. Atenção aos rótulos. A PBS e o site do próprio filme traduzem māhū como «transgênero», mas a resenha publicada pelo IndieWire em 2014 observou que chamar Hina de mulher trans impunha um termo vindo do continente, já que māhū é a palavra que ela mesma usa. A mesma resenha notou que o filme não disfarça as rachaduras no casamento dela.
Avisos de conteúdo: tensão e conflito num casamento
Bixa Travesty (2018, documentário)
Quem fez: Dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, com colaboração de Linn da Quebrada no roteiro, Brasil, em português. Linn, cantora e performer negra brasileira, se define como travesti, palavra que, segundo ela, carrega muita história e que ela reivindica com orgulho; a amiga e parceira de palco Jup do Bairro, também musicista trans negra, aparece no filme.
Linn da Quebrada cresceu na periferia de São Paulo e faz uma música influenciada pelo funk que desmonta o machismo, o racismo e as normas de gênero. Bixa Travesty acompanha Linn no palco com Jup do Bairro, num cenário em estilo podcast em que ela fala direto para a câmera, e em casa com a mãe, com quem conversa sobre gênero e pobreza.
É menos um retrato convencional do que uma mistura de performance, conversa e cenas encenadas, uma forma que Linn descreve não como ficção, mas como «fricção». O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim e ganhou o Teddy Award de melhor documentário.
Por que importa. Linn já disse que o cinema ajudou a construir a ausência da travesti, e que queria um filme que trouxesse o seu próprio olhar sobre si mesma. É exatamente isso: uma travesti negra definindo os termos de como é vista, sem baixar o tom, engraçada e política, num país onde, segundo o Guardian, mais pessoas trans foram mortas em 2019 do que em qualquer outro lugar.
Bom saber. Quem dirige não é a protagonista, e Linn tratou disso de frente: disse que não queria um filme sobre ela, mas feito com ela, e o chama de «nosso filme». Priscilla contou à Veja que Linn acompanhou cada corte e teve tanta voz quanto a dupla de direção.
Avisos de conteúdo: conversa franca sobre sexo e corpo, discussão de imagens explícitas, transfobia e racismo, tensão familiar em torno do gênero
Happy Birthday, Marsha! (2018, curta-metragem)
Quem fez: Escrito e dirigido por Tourmaline (creditada na época como Reina Gossett) e Sasha Wortzel, Estados Unidos, com Zackary Drucker como consultora de produção; Mya Taylor interpreta Johnson e Eve Lindley interpreta Rivera. Tourmaline já se descreveu como uma mulher trans negra.
Este é um curta de ficção, e não um documentário. Ele imagina Marsha P. Johnson num dia quente de junho de 1969: ela dá uma festa de aniversário e ninguém aparece, enquanto a amiga Sylvia Rivera enfrenta os seus próprios problemas. Ao longo de um dia duro de assédio e solidão, as duas amigas seguem até o Stonewall Inn, na noite em que a polícia planeja uma batida no bar.
Tourmaline e Wortzel começaram querendo fazer um documentário sobre Johnson e Rivera, depois mudaram de rumo para um curta narrativo, financiado coletivamente no Kickstarter, que descreveram como uma prova de conceito para um longa.
Por que importa. É uma homenagem a duas pessoas racializadas no coração da libertação queer e trans, feita por uma mulher trans negra que passou mais de uma década garimpando a história de Johnson em arquivos e salas de estar. Mostra Johnson e Rivera como amigas vivendo um dia comum e difícil, e não só como símbolos. Assista como homenagem, não como história.
Bom saber. O filme toma liberdades com o registro histórico: o aniversário de Johnson era em agosto, e numa entrevista posterior ela disse que a revolta já tinha começado quando chegou. O filme também está no meio de uma disputa pública com o documentário de David France The Death and Life of Marsha P. Johnson, tratada na ficha desse filme, mais abaixo.
Avisos de conteúdo: assédio policial e uma batida policial, uso de drogas, solidão e rejeição
Disclosure (2020, documentário)
Quem fez: Dirigido por Sam Feder, cineasta trans, e produzido por Feder e Amy Scholder, com Laverne Cox, que também aparece no filme, na produção executiva, Estados Unidos. Feder contou ao Deadline que mais de 150 pessoas trans trabalharam no filme, e que, quando não dava para contratar alguém trans para uma função da equipe técnica, uma pessoa trans que faz cinema recebia mentoria.
Disclosure percorre cerca de um século de cinema e TV, sobretudo dos Estados Unidos, pelos olhos das pessoas trans que cresceram assistindo a essas imagens. Laverne Cox, Jen Richards, Yance Ford, Lilly Wachowski, Angelica Ross, Brian Michael Smith, Chaz Bono, Susan Stryker e muitas outras pessoas assistem a trechos e falam do que essas imagens ensinaram a elas, e a todo mundo, sobre quem são as pessoas trans.
O filme vai do doloroso, como a «revelação» encenada para provocar nojo e a personagem trans usada como piada ou como assassina, ao inesperadamente terno, como Cox encontrando algo de si mesma em Yentl, ou Stryker e Wachowski no Pernalonga.
Por que importa. Muita gente da nossa comunidade absorveu essas imagens antes de ter palavras para se descrever. Disclosure dá nome a isso, e quem fala são só pessoas trans, intérpretes, roteiristas e especialistas, com pessoas trans também atrás da câmera. Feder descreveu a realização do filme como «ao mesmo tempo excruciante e validante», e assistir a ele pode provocar a mesma sensação.
Bom saber. É quase inteiramente sobre a cultura audiovisual dos Estados Unidos, e Feder já disse que «ainda falta muita coisa» nessa montanha de imagens. Feder também disse que a visibilidade em si não é o objetivo, já que mais visibilidade veio acompanhada de mais reação hostil, e o filme sustenta essa tensão em vez de resolvê-la.
Avisos de conteúdo: piadas transfóbicas e cenas de «revelação», trechos que retratam pessoas trans como enganadoras, repugnantes ou violentas, discussão da violência contra mulheres trans
No Ordinary Man (2020, documentário)
Quem fez: Dirigido por Aisling Chin-Yee e Chase Joynt, escrito por Chin-Yee e Amos Mac, Canadá. Joynt é trans, e Billy Tipton é interpretado, em testes de elenco e em cenas, por atores que são homens trans, entre eles Marquise Vilsón e Scott Turner Schofield.
Billy Tipton foi um pianista e cantor de jazz que viveu como homem a partir de 1933, tocou em clubes por todo o Oeste e o Meio-Oeste dos Estados Unidos e, mais tarde, se estabeleceu em Spokane com a esposa, Kitty, e os três filhos adotivos do casal. Quando ele morreu, em 1989, tornou-se público que tinha sido designado do sexo feminino ao nascer, e tabloides e talk shows transformaram a vida da família num espetáculo.
No Ordinary Man não tenta decidir quem Tipton «realmente» era. Quem dirige faz testes com atores homens trans para cenas escritas sobre a vida dele, e depois pergunta o que o papel desperta neles. Pessoas trans que escrevem e pesquisam discutem como a história dele foi contada, e o filho, Billy Jr., fala sobre o pai.
Por que importa. Filmes sobre masculinidade trans ainda são poucos, e este trata com um cuidado verdadeiro um homem que nunca falou por si. É comovente ver homens trans de diferentes idades e origens se reconhecerem numa vida vivida antes das palavras que usamos hoje, e discutirem com ela. Joynt disse que o objetivo era colocar a narrativa «nas mãos do maior número possível de pessoas que se identificam como transmasculinas».
Bom saber. Tipton nunca se explicou publicamente, então todo relato sobre ele é uma interpretação. O filme discute abertamente com o mais conhecido deles, a biografia de 1998 escrita por Diane Wood Middlebrook, que, segundo as pessoas que participam do filme, apresentou a vida dele como uma escolha prática para poder trabalhar com música. Richard Brody, da New Yorker, que gostou do filme, observou que a abordagem metalinguística tem limites e raramente se detém no próprio processo.
Avisos de conteúdo: outing após a morte, trechos de arquivo de talk shows e tabloides que tratam a vida de Tipton como uma fraude, perguntas invasivas à família, discussão das circunstâncias da morte dele
Framing Agnes (2022, documentário)
Quem fez: Dirigido por Chase Joynt, escrito por Joynt e Morgan M. Page, Canadá. Joynt, que é trans, faz o papel do entrevistador, e as pessoas dos arquivos de casos são interpretadas pelo elenco trans formado por Angelica Ross, Zackary Drucker, Jen Richards, Max Wolf Valerio, Silas Howard e Stephen Ira, com a historiadora Jules Gill-Peterson como guia.
No início dos anos 1960, uma jovem mulher trans conhecida pelo pseudônimo Agnes participou da pesquisa sobre gênero do sociólogo Harold Garfinkel na UCLA e virou um caso famoso da sociologia. Décadas depois, Chase Joynt e a socióloga Kristen Schilt encontraram as transcrições das entrevistas de Garfinkel com ela e com outras pessoas trans num arquivo de metal enferrujado.
Framing Agnes reencena essas entrevistas como um talk show em preto e branco, no estilo dos anos 1960, e depois corta para o elenco, para quem fez o filme e para a historiadora Jules Gill-Peterson, que conversam sobre o que significa interpretar essas pessoas, sobre como as histórias trans são contadas e sobre por que, afinal, procuramos ícones. O filme nasceu do curta homônimo que Joynt fez em 2019.
Por que importa. Boa parte da nossa história mais antiga chega até nós por prontuários médicos e talk shows. Em vez de fingir que recupera a Agnes «real», este filme entrega o arquivo a pessoas trans e as deixa discutir com ele, e com a própria ideia de ícone trans. Como diz Angelica Ross no filme: «Ouvimos as histórias contadas pelo caçador, e não pelo leão.»
Bom saber. As críticas se dividiram quanto à forma. Na Paste, Shayna Maci Warner achou o filme «formalmente incompleto e irregular», disse que ele aproveitava muito pouco das transcrições extraordinárias e considerou a abordagem teórica bastante inacessível para um projeto construído sobre o depoimento de pessoas trans comuns. Se você quer uma história contada de forma direta, não é este.
Avisos de conteúdo: entrevistas de pesquisa reencenadas sobre gênero e corpos, escrutínio de pessoas trans em estilo talk show, trechos da imprensa dissecando celebridades trans
Kokomo City (2023, documentário)
Quem fez: Dirigido, produzido, filmado e montado por D. Smith, Estados Unidos, com Lena Waithe e Rishi Rajani na produção executiva. Smith é uma mulher trans e produtora musical vencedora do Grammy, e as quatro protagonistas do filme são mulheres trans negras.
Quatro mulheres trans negras que fazem ou já fizeram trabalho sexual, Daniella Carter e Dominique Silver em Nova York e Koko Da Doll e Liyah Mitchell em Atlanta, conversam com a câmera de D. Smith nos seus quartos, carros e casas. São engraçadas, diretas e afiadas ao falar de clientes, de perigo, de família e da forma como homens cis negros que as procuram em privado muitas vezes as humilham em público.
Smith filma em preto e branco com a energia de um videoclipe, acrescenta reencenações cheias de ironia e também entrevista alguns homens negros sobre desejo, gênero e masculinidade.
Por que importa. O filme não reduz mulheres trans negras ao trauma. Essas mulheres contam as próprias histórias, nos seus próprios termos, a uma diretora que, segundo ela mesma, perdeu a carreira na música e a moradia depois de fazer a transição. Ele recusa a respeitabilidade e os discursos cuidadosos de sempre, exatamente o que parte do público vai adorar e outra parte vai achar difícil.
Bom saber. A resenha do Hollywood Reporter achou que as entrevistas com homens negros às vezes ficam deslocadas ao lado do depoimento das mulheres. Peter Debruge, da Variety, apontou uma sequência perto do fim, centrada no corpo das mulheres, como uma escolha que parte do público trans considera polêmica. Koko Da Doll foi morta a tiros em Atlanta em abril de 2023, poucos meses depois da estreia, e o filme é dedicado a ela.
Avisos de conteúdo: conversa sexual franca, nudez, um encontro violento com um cliente envolvendo uma arma, termos ofensivos usados pelas próprias protagonistas, rejeição familiar, discussão da violência contra mulheres trans
Orlando, ma biographie politique (2023, documentário)
Quem fez: Escrito e dirigido por Paul B. Preciado, França, em francês, produzido por Les Films du Poisson com 24 Images e ARTE France. Preciado, filósofo nascido na Espanha e radicado em Paris, descrito pela produção como escritor e ativista transgênero, escalou 26 pessoas trans e não binárias de 8 a 70 anos, a maioria sem formação profissional de atuação.
Quando lhe perguntam por que nunca escreveu a própria biografia, Paul B. Preciado responde que Virginia Woolf já fez isso, em 1928. O Orlando de Woolf é um poeta que muda de sexo e vive ao longo de séculos. O filme de Preciado é uma carta filmada a Woolf: o Orlando dela saiu do livro e está vivo hoje, na forma de 26 pessoas trans e não binárias que se apresentam, cada uma, como Orlando.
Elas leem trechos do romance, falam das próprias vidas, das famílias e dos seus embates com a psiquiatria, e encenam cenas em cenários propositalmente caseiros, com participações da dupla de artistas Pierre et Gilles e da romancista Virginie Despentes. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2023, onde ganhou o Teddy Award de melhor documentário.
Por que importa. Ele dá a um grupo grande e diverso de pessoas trans e não binárias, da infância à velhice, o mesmo papel principal, e deixa cada uma delas se apropriar dele. É brincalhão e furioso ao mesmo tempo, trata o gênero como uma questão tanto política quanto pessoal, e lê um clássico da literatura como a nossa história, contada por nós. Se você gosta mais de ensaios do que de enredos, comece por aqui.
Bom saber. É ensaístico e de baixo orçamento por escolha, com cenários filmados para além das suas bordas. Redmond Bacon, do Journey Into Cinema, que gostou do filme, ainda assim o achou «um pouco teatral e repetitivo em alguns trechos». Preciado disse que queria evitar dar «uma imagem fixa do que é ser trans», então espere mais ideias e vozes do que uma história.
Avisos de conteúdo: discussão da psiquiatria como filtro de acesso à transição, rejeição familiar e transfobia, conversa franca sobre transição
The Stroll (2023, documentário)
Quem fez: Dirigido por Kristen Lovell e Zackary Drucker para a HBO Documentary Films, Estados Unidos. As duas diretoras são cineastas trans, e Lovell, que é negra, também fez ponto na The Stroll nos anos 1990 e é uma das vozes do filme.
Durante décadas, o quarteirão da West 14th Street perto do rio Hudson, hoje ocupado por lojas de luxo e pelo High Line, foi onde muitas mulheres trans negras e latinas ganhavam a vida com trabalho sexual. Elas o chamavam de The Stroll. Kristen Lovell era uma delas. Começou a filmar outras mulheres ali por volta dos 19 anos e, anos depois, com Zackary Drucker, voltou para encontrar as que sobreviveram.
O filme entrelaça as conversas delas com imagens de telejornais que antes as tratavam como um problema, animação feita com recortes e a história de como o policiamento e a gentrificação as expulsaram, incluindo o assassinato de Amanda Milan em 2000 e a resposta da comunidade.
Por que importa. Esta é a história trans contada a partir da rua, pelas mulheres que a viveram, e o filme não pede desculpas pelo trabalho sexual nem o transforma em lição de moral. Drucker disse que o clichê da trabalhadora sexual levou as pessoas a se concentrarem em outras histórias, o que apagou essas mulheres da nossa história. O legado de Sylvia Rivera atravessa o filme inteiro.
Bom saber. Fionnuala Halligan, da Screen Daily, observou que não é uma história apoiada em fatos e dados: não há uma lista das pessoas mortas, fala-se pouco do que aconteceu com quem desapareceu, e não há menção explícita à aids nem à epidemia de crack. O filme também inclui um trecho antigo de RuPaul zombando das mulheres do quarteirão, que as diretoras decidiram mostrar.
Avisos de conteúdo: o assassinato de Amanda Milan, abuso policial, encarceramento, violência de clientes, uso de drogas, imagens de arquivo zombando de mulheres trans
Longas de ficção com pessoas trans no centro
Ficção com personagens trans no coração da história, na maioria das vezes interpretadas por pessoas trans. Alguns filmes foram escritos e dirigidos por cineastas trans; outros vêm de cineastas que não se descreveram como trans e que trabalham com elenco trans nos papéis principais. A maioria são pequenos filmes independentes, vários não são falados em inglês, e nem todos são leves.
By Hook or by Crook (2001, longa de ficção)
Quem fez: Escrito, dirigido e produzido por Silas Howard e Harry Dodge, que também atuam no filme, com a corroteirista Stanya Kahn (Estados Unidos). Howard é um diretor trans e usa o pronome ele. Dodge usa ele, já se descreveu como uma «espécie de butch macho» e disse que durante muito tempo evitou falar de gênero.
Shy (Howard), que a dupla descreve como «um butch bonitão de cidade pequena, que embaralha o gênero», deixa o Kansas e vai para San Francisco depois da morte do pai. Lá conhece Valentine (Dodge), que foi adotado e procura a mãe biológica, e os dois viram melhores amigos e parceiros em pequenos crimes, junto com Billie (Kahn), amante de Val. Estão sem dinheiro, um pouco perdidos e com confiança total um no outro.
Por que importa. Feito quase sem dinheiro por dois artistas da cena queer punk e de performance de San Francisco, é um buddy movie sobre dois outsiders butch em que, como disse o IndieWire, Shy e Val nunca questionam o gênero um do outro. O IndieWire também o chamou de um dos filmes trans mais influentes já feitos. É um pedaço da história trans e butch que continua vivo.
Bom saber. Foi filmado em mini DV e tem um visual cru. As críticas da época se dividiram: Robert Koehler, da Variety, achou o filme chato, e Wesley Morris (Boston Globe) o chamou de «não particularmente bom». Em 2022, Howard e Dodge contaram à Filmmaker Magazine que estavam arrecadando dinheiro para restaurá-lo.
Avisos de conteúdo: pequenos crimes, brigas, pobreza, luto pela morte de um dos pais, ameaça de prisão
Tangerine (2015, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Sean Baker e escrito por Baker e Chris Bergoch (Estados Unidos), filmado com câmeras de iPhone 5s. As duas protagonistas, Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, são atrizes trans, e a Variety informou que elas contribuíram de forma significativa para o roteiro.
É véspera de Natal em Hollywood. Sin-Dee Rella (Rodriguez), trabalhadora sexual trans, acabou de cumprir 28 dias de cadeia quando a melhor amiga, Alexandra (Taylor), deixa escapar que o namorado de Sin-Dee, que também é o cafetão dela, anda traindo Sin-Dee. Ela sai furiosa pelo bairro atrás dele e da outra mulher, enquanto Alexandra distribui panfletos de um show em que vai cantar e para o qual espera que alguém de fato apareça.
É rápido, barulhento e muito engraçado, e uma trama paralela acompanha um taxista armênio que também tem um segredo.
Por que importa. Duas mulheres trans racializadas carregam o filme inteiro, e podem ser mesquinhas, leais, furiosas e hilárias, em vez de servirem de lição trágica para outra pessoa. A produção e a distribuidora fizeram o que foi noticiado como a primeira campanha de premiação voltada a atrizes trans, e Mya Taylor se tornou a primeira mulher trans a ganhar um Gotham Award. A amizade entre Sin-Dee e Alexandra é a verdadeira história de amor.
Bom saber. A Advocate noticiou críticas ao filme por mostrar, mais uma vez, mulheres trans como trabalhadoras sexuais. Rodriguez respondeu: «Eu diria que é realista.» Taylor, que também já tinha feito trabalho sexual, usou a atenção para falar contra o estigma que pesa sobre ele.
Avisos de conteúdo: trabalho sexual mostrado com franqueza, uso de drogas, insultos e assédio transfóbicos, brigas físicas, polícia
Karera ga honki de amu toki wa (2017, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Naoko Ogigami (Japão, em japonês). Rinko, a mulher trans no centro do filme, é interpretada por Toma Ikuta, descrito na crítica da Seventh Row como um ator homem e cisgênero. As fontes que encontramos não documentam nenhuma pessoa trans no elenco principal nem nas funções-chave da equipe.
Tomo tem 11 anos e está acostumada a se virar sozinha. Sempre que a mãe vai embora com um homem novo, Tomo fica na casa do tio Makio. Desta vez, Makio mora com a namorada, Rinko, uma mulher trans que cuida da casa com enorme carinho e que faz tricô. Rinko acolhe Tomo com um afeto que a menina nunca teve, e os três começam a se sentir uma família, embora nem todo mundo ao redor seja gentil com isso.
Por que importa. É um filme familiar japonês delicado e de grande circuito em que uma mulher trans é amada, respeitada e necessária. Elena Lazic (Seventh Row) o chamou de marco para um cinema nacional que muito raramente reconhece a existência de pessoas trans, e menos ainda de forma positiva. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Teddy Award na Berlinale.
Bom saber. Rinko é interpretada por um homem cis. Lazic escreveu que «é claro que é uma pena que Rinko seja interpretada pelo ator cisgênero Toma Ikuta» e achou o filme «decepcionantemente conservador», com «uma abordagem decididamente nada confrontadora da transfobia». A mesma crítica elogiou o calor humano do filme.
Avisos de conteúdo: negligência com uma criança, hostilidade transfóbica e homofóbica por parte de um pai ou de uma mãe, um menino que esconde que é gay
Una mujer fantástica (Uma Mulher Fantástica) (2017, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Sebastián Lelio, escrito por Lelio e Gonzalo Maza. Um filme chileno coproduzido com a Alemanha e a Espanha, em espanhol. Daniela Vega, que interpreta Marina, é uma mulher trans; ela entrou no projeto como consultora do roteiro, antes de Lelio lhe oferecer o papel principal.
Marina é cantora e garçonete em Santiago e vive com o companheiro, Orlando, mais velho que ela. Quando ele morre de repente, numa noite, a família dele e a polícia a tratam não como uma companheira de luto, mas como suspeita e como um problema a ser administrado. Ela é interrogada, recebe ordem de ficar longe do velório e é expulsa da casa que os dois dividiam, e continua procurando uma forma de se despedir nos seus próprios termos.
Por que importa. Vega interpreta Marina com uma dignidade teimosa que nunca pede pena ao público, e o filme fica do lado dela. Ganhou o Oscar de melhor filme em língua estrangeira, o primeiro do Chile nessa categoria, e Vega se tornou a primeira pessoa trans a subir ao palco do Oscar como apresentadora. No Chile, onde um projeto de lei de identidade de gênero avançava lentamente no Congresso, ativistas trans a descreveram como uma referência.
Bom saber. Lelio e Maza contaram ao Guardian que não conheciam nenhuma pessoa trans no Chile quando começaram a escrever, e foi por isso que chamaram Vega. Parte da crítica achou que o filme se interessa mais pelo que fazem com Marina do que por quem ela é: Emily Yoshida (Vulture) queria que Vega e Lelio «nos deixassem entrar um pouco mais para vê-la como indivíduo, para além da hostilidade que ela enfrenta», e Christopher Gray (Slant) o chamou de regressivo.
Avisos de conteúdo: luto, hostilidade transfóbica da família do companheiro, misgendering e uso do deadname pela polícia, um exame policial forçado e humilhante, agressão e sequestro por membros da família
Lingua Franca (2019, longa de ficção)
Quem fez: Escrito, dirigido, produzido e montado por Isabel Sandoval, que também interpreta a protagonista (produção filipina e americana, falada principalmente em inglês). Sandoval é uma mulher trans filipina e imigrante que vive no Brooklyn, como a personagem, e disse que foi o primeiro filme que fez depois da transição.
Olivia é uma mulher trans filipina sem documentos que trabalha como cuidadora e mora na casa de Olga, uma senhora judia de origem russa de Brighton Beach, no Brooklyn, que começa a perder a memória. Olivia manda dinheiro para casa e está pagando um homem americano por um casamento que pode lhe garantir o green card. Então Alex, o neto adulto de Olga, recém-saído da reabilitação, se muda para a casa, e algo lento e incerto começa entre ele e Olivia, enquanto o medo das batidas da imigração nunca sai de cena.
Por que importa. É uma mulher trans racializada contando, com a própria voz, uma história sobre desejo, trabalho e documentos, e interpretando o papel ela mesma. Ser trans faz parte da vida de Olivia, mas não é o enredo inteiro. Sandoval disse que tomou emprestada de propósito a forma de um melodrama conhecido, para que o filme mostrasse que Olivia é «mais do que só uma mulher trans à procura de amor, ou uma imigrante sem documentos». Se você já teve de pesar segurança contra intimidade, ele vai parecer próximo.
Bom saber. É silencioso e contido por escolha, e nem toda a crítica embarcou: Stephen Dalton (The Hollywood Reporter) o chamou de «uma decepção amadora e sem força», e Jeannette Catsoulis (The New York Times) o achou «tímido demais dramaticamente e leve demais narrativamente para emocionar».
Avisos de conteúdo: medo de batidas da imigração e de deportação, provocações transfóbicas, álcool e dependência, outing e violação de privacidade, conteúdo sexual
Port Authority (2019, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Danielle Lessovitz (Estados Unidos e França), produzido com a produtora de Martin Scorsese. Leyna Bloom, que interpreta Wye, é uma atriz trans racializada vinda da comunidade ballroom; Lessovitz disse que nunca pensou em escalar para o papel alguém que não fosse trans.
Paul, de 20 anos e sem lugar para ficar, chega ao terminal rodoviário Port Authority, em Nova York, e se sente atraído por Wye, uma jovem que dança vogue na calçada com a sua família do ballroom. Ele acaba dividido entre dois mundos: um grupo de caras machões que lhe arranjam trabalho em despejos, e a house de kiki ballroom de Wye. O romance dos dois começa antes de ele saber que ela é trans, e o filme acompanha o que ele faz com isso.
Por que importa. Bloom se tornou a primeira atriz trans racializada a protagonizar um filme em Cannes, e leva à tela a vida real do ballroom: «Sou uma mulher trans do ballroom interpretando uma personagem», disse ao Los Angeles Times. Até as críticas negativas ao filme elogiaram a atuação dela, e as cenas com a família da house são o motivo para assistir.
Bom saber. A história é contada do ponto de vista de Paul, e a crítica apontou isso. Odie Henderson (RogerEbert.com) escreveu que Wye é «quase um detalhe secundário em alguns momentos» e que «é uma pena que este filme não seja de fato sobre elas». Robert Daniels (The Playlist) o chamou de «mais um filme míope que usa pessoas negras como lição para brancos ignorantes de fora».
Avisos de conteúdo: insultos homofóbicos e transfóbicos, um assalto, violência contra gays, despejos, mentiras e um relacionamento escondido
Joyland (2022, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Saim Sadiq, escrito por Sadiq e Maggie Briggs (Paquistão, em urdu e punjabi). Alina Khan, que interpreta Biba, é uma atriz trans de Lahore que também tinha protagonizado Darling, curta de Sadiq.
Em Lahore, Haider, o filho mais novo e desempregado de um patriarca que quer um neto, arranja escondido um emprego de dançarino de apoio num teatro de dança erótica. A estrela do espetáculo é Biba, uma dançarina trans de língua afiada e grandes ambições, e Haider se apaixona por ela. Em casa, a esposa dele, Mumtaz, é obrigada a largar o emprego no salão de beleza de que tanto gosta. O filme acompanha o que essa casa cheia de regras faz com todo mundo que vive nela.
Por que importa. Biba é orgulhosa, engraçada, exigente e determinada a ser uma estrela, interpretada por uma atriz trans da cidade onde o filme se passa. Sadiq disse que «é simplesmente revigorante ver uma personagem trans muito empoderada que por acaso é não branca e muçulmana, num país como o Paquistão». O filme ganhou o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard e a Queer Palm em Cannes.
Bom saber. O governo do Paquistão proibiu o filme em novembro de 2022, depois de queixas de religiosos radicais que o chamaram de «repugnante». A proibição federal foi suspensa, mas a província do Punjab, onde fica Lahore, manteve a sua própria proibição; em agosto de 2025, o Dawn informou que ele finalmente seria exibido em Lahore, num espaço de eventos. Vale notar que o personagem principal é Haider, e não Biba.
Avisos de conteúdo: violência contra mulheres trans (um assassinato é descrito), apalpadas e assédio sexual, perguntas grosseiras sobre o corpo de uma mulher trans, controle patriarcal, conteúdo sexual, uma morte súbita na família
Monica (2022, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Andrea Pallaoro, escrito por Pallaoro e Orlando Tirado (Estados Unidos e Itália). Trace Lysette, que interpreta Monica, é uma atriz trans; ela fez o primeiro teste para o papel em 2016.
Monica, uma mulher trans, recebe uma ligação da cunhada: a mãe, que a rejeitou na adolescência, está gravemente doente. Monica volta para a casa da família para ajudar a cuidar dela. A mãe, que não a vê desde antes da transição e cuja doença afeta a mente, não a reconhece, e Monica decide não dizer quem é.
Por que importa. É um papel principal raro para uma mulher trans, e Lysette o sustenta quase sem discursos, em olhares e respirações contidas. O filme entende o afastamento familiar por dentro: voltar para casa como uma estranha, cuidar de alguém que machucou você, querer algo que não se pode pedir. Estreou na competição de Veneza, onde, segundo a Out, foi aplaudido de pé durante 11 minutos.
Bom saber. A contenção não funciona para todo mundo: Jon Frosch (The Hollywood Reporter) o chamou de «um exercício moroso de formalismo» que «parece um filme lutando o tempo todo para criar conexão». É silencioso e lento, e explica muito pouco.
Avisos de conteúdo: rejeição por parte de um dos pais, doença grave de um dos pais, afastamento familiar, solidão
Something You Said Last Night (2022, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Luis De Filippis (Canadá e Suíça, em inglês e italiano). De Filippis é uma mulher trans. No papel principal, Carmen Madonia, que é trans, fazia o seu primeiro filme, e De Filippis criou um programa de mentoria que levou cinco jovens trans para a equipe.
Ren tem por volta de 25 anos, quer ser escritora, acabou de perder o emprego e foi arrastada para uma semana de férias de verão num resort de praia em Ontário com os pais ítalo-canadenses e a irmã. A história é mais ou menos essa: implicâncias, tédio, uma mãe que se preocupa demais, irmãs que brigam por causa de um chapéu brega. Ren está dividida entre querer levar uma vida independente e a facilidade de deixar, de novo, que a família cuide dela.
Por que importa. Não há saída do armário, nem enredo de transição, nem violência à espreita. De Filippis disse que estava cansada de filmes trans contados de uma perspectiva cis e obcecados pela transição ou pela saída do armário. Mel Woods, na crítica para a Xtra, contou que ficou esperando um misgendering ou um comentário cruel que nunca chegou. Ren pode ser mal-humorada, carinhosa e um pouco perdida, como qualquer pessoa em férias com a família.
Bom saber. Essa calma também é o limite do filme para algumas pessoas: Lovia Gyarkye (The Hollywood Reporter) achou que, sem uma compreensão maior de Ren, ele «pode parecer, sem querer, impenetrável em alguns momentos», e Erik Piepenburg (The New York Times) queria que algo além de naturalismo e ternura movesse o filme.
Avisos de conteúdo: discussões e tensão familiar (as críticas observam que o filme evita violência transfóbica e misgendering)
20.000 especies de abejas (2023, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Estibaliz Urresola Solaguren, o seu primeiro longa (Espanha, em espanhol, basco e francês). A diretora trabalhou com a Naizen, uma associação de famílias de menores trans, para retratar com fidelidade a experiência da criança.
Durante um verão no País Basco, uma criança de oito anos que usa um apelido e que, em segredo, pensa em si mesma como Lucía passa uma temporada na casa da avó com a mãe, Ane, e os irmãos. A casa é ligada à apicultura, e Ane, uma escultora em plena crise de meia-idade, trabalha com a cera de abelha da família. Enquanto Lucía tenta se fazer entender, as mulheres de três gerações à sua volta também começam a olhar com atenção para a própria vida.
Por que importa. O filme olha para uma criança trans com paciência e delicadeza, e trata como drama a lenta compreensão da família, e não a existência da criança. Sofía Otero se tornou a pessoa mais jovem a ganhar o Urso de Prata de melhor atuação principal da Berlinale. Se você se lembra de ter sido uma criança que sabia antes de todo mundo ao redor, algumas partes vão bater forte.
Bom saber. Leigh Monson (The A.V. Club) apontou que Urresola Solaguren não é trans, o que limita o quanto o filme consegue mergulhar nos sentimentos de Lucía, e viu falhas no ritmo e na profundidade, embora tenha elogiado a empatia do filme.
Avisos de conteúdo: misgendering e uso do nome de nascimento da criança dentro da família, negação por parte de um dos pais, indícios de preconceito de um dos avós, o medo de rejeição de uma criança
Mutt (2023, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Vuk Lungulov-Klotz (Estados Unidos, em inglês e espanhol). Lungulov-Klotz é um homem trans e se inspirou na própria vida como filho de uma família chilena e sérvia. No papel principal, Lío Mehiel é trans, usa they/them e já se descreveu como alguém de «gêneros mistos» e com raízes porto-riquenhas e gregas.
Ao longo de um dia agitado em Nova York, Feña, um jovem homem trans, esbarra em três pessoas com quem perdeu contato depois da transição: o ex-namorado hétero, a meia-irmã mais nova, de quem se afastou, e o pai, que está chegando do Chile e precisa ser buscado no aeroporto. Cada uma dessas pessoas precisa encontrar quem Feña é agora, e ele precisa decidir quanto de si mesmo está disposto a continuar explicando.
Por que importa. Homens trans ainda raramente estão no centro de um filme, e este foi feito por dentro, com elenco e equipe em sua maioria trans e queer. Mehiel foi a primeira pessoa trans a ganhar o Prêmio Especial do Júri de atuação da competição U.S. Dramatic em Sundance. O filme é honesto sobre os pequenos custos do dia a dia, como sofrer misgendering no banco, e igualmente honesto sobre ternura e desejo.
Bom saber. Clayton Dillard (Slant) escreveu que «Feña sofre para que outras pessoas trans não precisem sofrer», o que, na visão da crítica, «reduz Mutt a um especial educativo de TV». Lungulov-Klotz disse que o público trans costuma achar o filme equilibrado e doce, enquanto quem não é trans acha que ele faz o personagem passar por muita coisa.
Avisos de conteúdo: misgendering, um pai que questiona e invalida a transição do filho, afastamento familiar, intimidade sexual
I Saw the TV Glow (2024, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Jane Schoenbrun (Estados Unidos), com Justice Smith e Jack Haven. Schoenbrun é trans, usa they/them e escreveu o filme depois de se assumir. Haven, que aparece nos créditos com o nome anterior, Brigette Lundy-Paine, se assumiu como pessoa não binária em 2019 e anunciou o nome Jack Haven em 2025.
Em 1996, Owen (Smith) e Maddy (Haven), adolescentes que vivem a solidão de um subúrbio, se aproximam por causa de The Pink Opaque, uma série exibida tarde da noite sobre duas garotas com uma conexão psíquica que enfrentam um vilão. Owen não tem permissão para ficar acordado até esse horário, então Maddy compartilha a série com ele. Com o passar dos anos, a série passa a parecer mais real para Owen e Maddy do que a própria vida, e a fronteira entre uma coisa e outra começa a se apagar.
Por que importa. Schoenbrun descreveu o filme como uma obra sobre o egg crack, o momento em que o ovo racha, e sobre a disforia tal como a viveu durante 30 anos antes de ter linguagem para ela: interna, subliminar, às vezes aterrorizante. Não há cena de saída do armário nem história de transição, só a sensação. Se você passou anos sentindo que algo estava errado sem saber o quê, este é um filme feito de dentro dessa sensação.
Bom saber. É uma alegoria, lenta e deliberadamente desconfortável, e não algo para assistir em busca de conforto. Parte da crítica achou difícil de assistir: Amy Nicholson (Los Angeles Times) o chamou de «uma coleção de cenas pesadas que podem dar ao público vontade de arrancar a própria pele».
Avisos de conteúdo: automutilação mostrada de forma explícita, depressão e colapso emocional, controle excessivo por parte de um dos pais, doença e morte de um dos pais, imagens de enterro
Séries
A televisão dá espaço a uma personagem: várias temporadas para ter amizades, trabalho, dias ruins e vida amorosa. Estas séries estão aqui pelo que fizeram com personagens trans e não binárias. Em algumas, essas personagens são a história inteira; em outras, são um fio entre muitos, e cada ficha diz qual é o caso.
Orange Is the New Black (2013, série)
Quem fez: Criada por Jenji Kohan para a Netflix, Estados Unidos, a partir das memórias de prisão de Piper Kerman; sete temporadas, de 2013 a 2019. Laverne Cox, que já se descreveu como «uma orgulhosa mulher transgênero afro-americana», interpreta Sophia Burset, uma personagem recorrente.
A série acompanha Piper Chapman, uma mulher branca e privilegiada mandada para uma prisão feminina, e depois se abre para as mulheres ao redor dela. Esta ficha é sobre uma delas: Sophia Burset, a cabeleireira da prisão, ex-bombeira que cumpre pena por fraude com cartão de crédito. A esposa dela, Crystal, aceitou a sua transição. O filho, Michael, tem dificuldade com a transição e parou de falar com ela.
Um dos primeiros episódios volta à vida de Sophia antes da prisão, incluindo uma cena terna em que Crystal a ajuda a se vestir como mulher pela primeira vez. As temporadas seguintes a fazem passar por coisas bem mais duras lá dentro.
Por que importa. Em 2013, a TV Guide disse que uma mulher trans racializada interpretando uma mulher trans racializada era algo inédito na televisão de grande audiência. Sophia é mãe, esposa, amiga e empresária, e não uma piada. Cox se tornou a primeira pessoa trans indicada a um Emmy, em 2014, e a primeira pessoa trans na capa da Time. A TV Guide sugeriu que ela provavelmente era a primeira pessoa trans que muita gente do público já tinha visto, na TV ou em qualquer lugar.
Bom saber. Sophia é uma personagem coadjuvante numa série construída em torno de Piper; Kohan chamou Piper de seu «cavalo de Troia» para levar à TV histórias de mulheres negras, latinas e mais velhas. Isso significa que o tempo de tela de Sophia é irregular ao longo das sete temporadas, e várias das tramas posteriores dela giram em torno do que o sistema prisional faz com ela.
Avisos de conteúdo: prisão, misgendering, zombaria e ameaças, uma prisão que nega a uma mulher trans os cuidados de que ela precisa, uma agressão transfóbica, longo confinamento em solitária, violência sexual envolvendo outras personagens, dependência de drogas
Boy Meets Girl (2015, série)
Quem fez: Criada e escrita por Elliott Kerrigan, produzida pela Tiger Aspect para a BBC Two, Reino Unido; duas temporadas, 2015 e 2016. Rebecca Root, que interpreta Judy, é uma mulher trans, e a BBC se comprometeu desde cedo a escalar uma pessoa trans para o papel.
Leo tem 26 anos, acabou de perder o emprego mais uma vez e ouve poucas e boas da mãe. Judy tem 40. No primeiro encontro, ela conta que é trans. Ele continua interessado, e a sitcom acompanha os dois enquanto se apaixonam e lidam com as famílias, que nem sempre estão preparadas.
Na forma, é uma sitcom familiar britânica tradicional: mães, irmãos, jantares constrangedores e piadas escancaradas, tudo construído em torno de uma história de amor.
Por que importa. Root disse que era a primeira sitcom de grande audiência do Reino Unido a escalar uma pessoa trans num papel trans principal, e a primeira do país a mostrar um romance entre uma atriz trans num papel trans e um homem cis. O romance é o centro: é uma mulher trans na casa dos quarenta que está sendo cortejada. O roteiro nasceu do Trans Comedy Award, uma busca do BBC Writersroom por roteiros de comédia que retratassem pessoas trans de forma positiva.
Bom saber. Na crítica do primeiro episódio para o The Telegraph, Jasper Rees disse que era um grande momento da TV, mas que a série se desdobrava para agradar ao grande público com «clichês grosseiros», incluindo piadas sobre o corpo de Judy. O quanto você vai aproveitar pode depender do quanto você gosta do humor antiquado das sitcoms de família.
Avisos de conteúdo: piadas sobre corpos trans, comentários desajeitados e às vezes transfóbicos de familiares, usados para fazer rir
Sense8 (2015, série)
Quem fez: Criada por Lana Wachowski, Lilly Wachowski e J. Michael Straczynski para a Netflix, Estados Unidos, filmada em cidades do mundo todo; duas temporadas, de 2015 a 2017, e um episódio final em 2018. Lana e Lilly Wachowski são trans, e Jamie Clayton, que interpreta Nomi Marks, é uma mulher trans.
Oito pessoas desconhecidas entre si, espalhadas pelo mundo, de San Francisco a Mumbai e à Cidade do México, descobrem de repente que estão ligadas mental e emocionalmente. Conseguem sentir o que as outras sentem, tomar emprestadas as habilidades e as línguas umas das outras e entrar na vida umas das outras. E uma organização está caçando pessoas como elas.
Em San Francisco, Nomi Marks é hacker e blogueira política e vive com a namorada, Amanita. Ela é uma das oito, e a história dela não é sobre transição: é sobre amor, perigo e aprender a viver conectada a outras sete pessoas.
Por que importa. Nomi foi escrita por uma mulher trans e interpretada por uma mulher trans. Clayton disse que trabalhar com Lana Wachowski, uma diretora trans que tinha escrito uma personagem trans, foi o principal motivo para aceitar o papel, e que era importante que a história não girasse em torno da transição. A série inteira se apoia numa empatia que atravessa fronteiras de gênero, sexualidade e nacionalidade, e a base de fãs se importou o bastante para fazer campanha por um final digno.
Bom saber. No começo, é lenta e dispersa. Na crítica dos primeiros episódios para a Variety, Brian Lowry escreveu que a série «não faz muito sentido» e achou tudo desconexo. A Netflix cancelou a série em 2017, dizendo que a audiência era pequena demais para os custos; depois de campanhas de fãs, um episódio final de duas horas, «Amor Vincit Omnia», foi lançado em 2018.
Avisos de conteúdo: uma mulher trans mantida num hospital contra a vontade, uma mãe que a rejeita, violência e pessoas sendo caçadas
Pose (2018, série)
Quem fez: Criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals para a FX, Estados Unidos; três temporadas, de 2018 a 2021. Janet Mock, mulher trans, escreveu, dirigiu e produziu; Our Lady J, roteirista trans, fez parte da sala de roteiro; o diretor trans Silas Howard foi coprodutor executivo; e as pessoas trans MJ Rodriguez, Indya Moore, Dominique Jackson, Hailie Sahar e Angelica Ross fazem parte do elenco fixo.
Nova York, 1987. Blanca faz unhas de dia e desfila nos balls à noite, as competições em que houses de pessoas queer e trans disputam troféus e glória. Cansada da crueldade de Elektra, a mãe da sua house, ela funda a própria house e acolhe jovens que não têm para onde ir. Ao redor dela estão Angel, uma trabalhadora sexual que se apaixona por um cliente casado, e Pray Tell (Billy Porter), que apresenta os balls.
A série transita entre o ballroom, as houses e as enfermarias de hospital no auge da crise da aids. É um melodrama, de forma aberta e proposital: grandes sentimentos, grandes vestidos, família escolhida.
Por que importa. Pose colocou mais intérpretes trans em papéis fixos do que qualquer série de ficção antes dela, e põe mulheres trans negras e latinas no centro da sua própria história. Foi nela que Janet Mock se tornou a primeira mulher trans racializada a escrever e dirigir um episódio de televisão. Se você conhece o ballroom só por Paris Is Burning, este é o mesmo mundo imaginado de dentro, com tanto espaço para a alegria quanto para o luto.
Bom saber. Ben Travers, do IndieWire, achou a série direta demais em alguns momentos, com cenas que param para dar lição ao público sobre questões trans. Na estreia da última temporada, em 2021, Janet Mock fez um discurso criticando o seu salário («Por que eu ganho 40.000 dólares por episódio?»), os primeiros roteiros escritos por homens e uma indústria que, nas palavras dela, «pisou em nós».
Avisos de conteúdo: HIV e aids, doença e luto, trabalho sexual, jovens que a família expulsou de casa
Veneno (2020, série)
Quem fez: Criada por Javier Calvo e Javier Ambrossi para a Atresplayer Premium, Espanha, em espanhol; uma temporada de oito episódios, baseada no livro da jornalista Valeria Vegas sobre Cristina Ortiz. A dupla de criadores se propôs a escalar mulheres trans para os papéis trans: Cristina é interpretada em diferentes idades por Jedet, Daniela Santiago e Isabel Torres, e Valeria por Lola Rodríguez, que é trans.
Nos anos 1990, Cristina Ortiz, conhecida como La Veneno, explodiu na televisão espanhola de fim de noite e virou uma estrela nacional, engraçada, direta e sem vergonha nenhuma. Anos depois, quando ela já tinha saído dos holofotes, Valeria Vegas, uma jovem estudante de jornalismo que está lidando com a própria transição, vai atrás dela, e as duas mulheres criam uma amizade que vira livro.
A série transita entre a infância difícil de Cristina num pequeno povoado, os anos em Madri, a fama e o presente de Valeria, e por meio delas conta uma história da vida LGBT na Espanha a partir dos anos 1960. É barulhenta, engraçada e terna, e não finge que a vida dela foi fácil.
Por que importa. Veneno é sobre mulheres trans, interpretadas por mulheres trans, e foi feita por criadores que disseram que histórias LGBT devem ser feitas com pessoas LGBT. A série dá a Cristina Ortiz toda a sua humanidade e mostra como uma mulher numa tela de televisão pode mudar a vida de alguém que assiste em casa. Isabel Torres, que interpreta Cristina nos últimos anos de vida, tinha sido ela mesma a primeira pessoa trans das Ilhas Canárias a mudar legalmente de nome e de gênero.
Bom saber. Não encontramos críticas significativas nas fontes que lemos. Torres morreu em 2022, o que faz da atuação dela aqui também um registro do seu trabalho.
Avisos de conteúdo: infância violenta e rejeição, uso do deadname, trabalho sexual, doença e morte
Sort Of (2021, série)
Quem fez: Criada por Zaiba Baig e Fab Filippo, que também foram showrunners e roteiristas, para a CBC, Canadá; três temporadas, de 2021 a 2023. Baig, que é queer, transfeminina e muçulmana, também interpreta Sabi.
Sabi Mehboob é uma pessoa não binária da geração millennial que vive em Toronto, de família imigrante paquistanesa, usa os pronomes they/them e divide os dias entre o trabalho de bartender num bar LGBTQ e o de babá das duas crianças de um casal muito ocupado. Sabi está prestes a se mudar para Berlim com 7ven, a sua amizade mais próxima, quando a mãe das crianças, Bessy, sofre um acidente grave, e Sabi decide ficar.
Os episódios têm cerca de 20 minutos. A série se importa menos com grandes acontecimentos do que com o fluxo da vida cotidiana: uma mãe que tenta entender quem pôs no mundo, um namorado complicado, brigas porque as crianças comem açúcar demais, uma amizade que precisa se esticar.
Por que importa. Sort Of não trata o gênero de Sabi como o problema a resolver. É uma comédia em que uma pessoa não binária de família imigrante está simplesmente no centro de uma vida comum e bagunçada, numa série cocriada e protagonizada por Baig, artista queer e transfeminina. A ideia delicada da série, nas palavras da própria emissora, é que «todo mundo, sem exceção, está em transição». Ganhou um Peabody Award.
Bom saber. John Powers, da NPR, elogiou a modéstia da série, o que também diz o que ela não é: não há grandes reviravoltas, só pequenas mudanças. Quem cocriou e protagoniza a série agora usa o nome Zaiba Baig, por isso créditos mais antigos e muitos artigos sobre a série trazem outro primeiro nome.
Avisos de conteúdo: um acidente grave e uma personagem em coma, tensão familiar em torno do gênero
Dead End: Paranormal Park (2022, série)
Quem fez: Criada por Hamish Steele, adaptada dos seus quadrinhos DeadEndia, produzida pela Blink Industries, em Londres, para a Netflix; duas temporadas, ambas lançadas em 2022. Barney, o protagonista, tem a voz de Zach Barack, que é trans e judeu como o personagem.
Barney, um adolescente trans, gay e judeu, foge de uma casa difícil e arranja um emprego de verão no Phoenix Parks, um parque temático construído em torno de uma estrela de cinema no estilo de Dolly Parton. Norma, uma superfã ansiosa com um conhecimento enciclopédico sobre a estrela, faz o mesmo. A casa mal-assombrada do parque esconde uma passagem para o mundo dos demônios, e um pedaço da alma de um lorde demoníaco vai parar dentro de Pugsley, o pug de Barney, que de repente começa a falar.
É uma comédia de terror animada, com mascotes zumbis, apresentadores demoníacos de game show, um episódio musical e primeiras paixonites, voltada para um público mais jovem que o dos quadrinhos.
Por que importa. Um garoto trans é o protagonista de um desenho animado para todas as idades, com a voz de um ator trans, e ser trans faz parte dele sem ser o enredo inteiro: ele tem uma paixonite, um cachorro, amigos e demônios para enfrentar. Barack disse que interpretar um garoto trans numa série infantil foi «um sonho realizado». As dificuldades de Norma vêm da vida do próprio Steele como pessoa autista, e, na Paste, a crítica assinada por uma pessoa autista achou a personagem escrita de forma muito autêntica.
Bom saber. Reuben Baron, da Paste, gostou do roteiro, mas achou que a animação perdeu o charme visual dos quadrinhos, e observou que alguns elementos mais sombrios foram suavizados. Antes da estreia, um grupo de membros do Senado dos Estados Unidos destacou a série entre os programas infantis que queria ver com avisos de conteúdo. A Netflix cancelou a série em janeiro de 2023; Steele indicou a quem acompanhava a série o terceiro e último livro de DeadEndia, para ter algum desfecho.
Avisos de conteúdo: uma família que não aceita, demônios e terror em desenho animado, ansiedade
Clássicos que continuam importantes
Filmes mais antigos que ainda aparecem nas conversas e que ainda recompensam quem assiste. Cada um vem com contexto: o que trazia de novo na época, e o que se lê de outro jeito hoje. As palavras usadas na tela, e nas críticas da época, muitas vezes não são as que as pessoas usam hoje.
The Queen (1968, documentário)
Quem fez: Dirigido por Frank Simon, Estados Unidos, com Flawless Sabrina (Jack Doroshow), que comandava o concurso, na apresentação e na narração. Entre as concorrentes estão Rachel Harlow, que fez a transição depois do filme, e Crystal LaBeija, que mais tarde fundou a House of LaBeija.
Em 1967, drag queens de todos os Estados Unidos foram ao Town Hall de Nova York para o Miss All-America Camp Beauty Contest, organizado por Flawless Sabrina. Frank Simon filmou tudo: reuniões de organização, uma ida a um fornecedor de figurinos, ensaios e conversas em quartos de hotel sobre namorados, sobre o alistamento para a Guerra do Vietnã e sobre se fariam a transição se pudessem. Depois, o próprio concurso, com Andy Warhol entre os jurados.
Quando os resultados saem, nem todo mundo concorda com eles, e uma das concorrentes diz isso com palavras que são citadas até hoje.
Por que importa. É um dos primeiros filmes a deixar drag queens falarem diante da câmera sobre a própria vida, inclusive sobre o seu gênero, numa época em que, como observa Richard Brody na New Yorker, o próprio drag era ilegal em Nova York. Dá para ver as pessoas buscando uma linguagem sobre gênero que ainda não existia. E o momento de Crystal LaBeija leva diretamente às houses do ballroom de Paris Is Burning e de Pose.
Bom saber. É um documento de 1967: as palavras que as pessoas usam sobre gênero e sobre si mesmas são as palavras daquela época, e as vidas drag, gays e trans não aparecem separadas como costumam aparecer hoje. Harlow disse à Rolling Stone em 2019 que «muitas das histórias trans e drag que estão vindo à tona agora nascem, de algum modo, de The Queen».
Avisos de conteúdo: linguagem de época sobre gênero e sexualidade, conversas sobre o alistamento militar, nudez parcial, uma acusação furiosa de que o concurso foi armado
Paris Is Burning (1990, documentário)
Quem fez: Dirigido e produzido por Jennie Livingston, Estados Unidos, filmado em Nova York entre meados e o fim dos anos 1980. Livingston disse em 2020: «Hoje me identifico como genderqueer.» As pessoas na tela são homens gays negros e latinos, drag queens e mulheres trans da cena dos balls, entre elas Dorian Corey, Pepper LaBeija, Venus Xtravaganza, Octavia St. Laurent e Willi Ninja.
Na Nova York dos anos 1980, pessoas queer e trans negras e latinas construíram um mundo próprio: os balls, onde as concorrentes desfilam em categorias julgadas por estilo, atitude e «realness», representando houses que funcionam como famílias escolhidas, cada uma liderada por uma mãe. Livingston passou anos frequentando os balls e gravando entrevistas com as pessoas que os faziam acontecer.
O filme é em parte celebração, em parte história oral. Explica a linguagem (houses, mães, shade, reading, voguing) e deixa quem aparece na tela falar, muitas vezes de um jeito muito engraçado, sobre dinheiro, raça, gênero, fama e sobre como sobrevive.
Por que importa. É o registro mais conhecido de uma cultura criada por pessoas queer e trans racializadas, filmado enquanto elas ainda podiam falar por si mesmas; a maioria morreu nas décadas seguintes, por violência transfóbica, pobreza e aids. Tanta coisa da linguagem do ballroom virou mainstream que vale a pena ouvi-la primeiro da boca delas. O filme também influenciou Pose, série em que Livingston trabalhou mais tarde. A Biblioteca do Congresso o incluiu no National Film Registry em 2016.
Bom saber. O filme é discutido desde o lançamento. bell hooks questionou se Livingston, que vinha da classe média branca, não estaria oferecendo os balls como espetáculo. Em 1993, algumas das pessoas que participaram sentiram que tinham ficado de fora dos lucros do filme; as reivindicações foram abandonadas, mas a produção dividiu cerca de 55.000 dólares entre 13 delas. Livingston disse que o filme privilegiou a performance e a família escolhida e deixou muita coisa de fora.
Avisos de conteúdo: violência transfóbica, incluindo o assassinato de uma mulher que aparece no filme, pobreza, aids, trabalho sexual, rejeição familiar
Ma vie en rose (Minha Vida em Cor-de-Rosa) (1997, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Alain Berliner, escrito por Berliner e Chris Vander Stappen; coprodução da Bélgica, da França e do Reino Unido, em francês.
Ludovic, de sete anos, acabou de se mudar com a família para um subúrbio arrumadinho onde o chefe do pai mora na casa ao lado. Ludo está calma e segura: é uma menina, e uma confusão com os cromossomos só precisa ser resolvida. Usa vestidos, planeja se casar com o amigo Jérôme, filho do chefe, e foge para um mundo de fantasia colorido governado por Pam, uma princesa de televisão com jeito de boneca.
Os vizinhos não reagem bem e, à medida que a pressão aumenta, os pais, que a amam, não sabem direito o que fazer.
Por que importa. O filme leva a sério a certeza de uma criança pequena e a mostra em grande parte do ponto de vista dela, por meio da fantasia e da cor, e não de relatórios clínicos. Escrevendo para o BFI, Juliet Jacques o chamou de um dos filmes trans mais sensíveis dos anos 1990 e elogiou a compreensão de Berliner sobre como os marcadores de gênero são simples, e importantes, para as crianças. Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.
Bom saber. Foi feito e resenhado nos termos de 1997: Roger Ebert, como muitos críticos da época, descreveu Ludovic como um menino com uma ideia equivocada. Textos críticos posteriores, como o de Jacques, tratam Ludo como menina, que é como este guia a descreve. O filme é delicado, mas não esconde o quanto os adultos podem ser cruéis.
Avisos de conteúdo: uma comunidade que se volta contra uma família, uma criança que sofre bullying e agressão de outras crianças, uma tentativa de suicídio de uma criança, agressão física de um dos pais contra a criança, um corte de cabelo forçado
Todo sobre mi madre (Tudo Sobre Minha Mãe) (1999, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar; Espanha e França, em espanhol. Agrado é interpretada por Antonia San Juan e Lola por Toni Cantó.
Manuela, enfermeira em Madri, perde o filho adolescente num acidente na noite em que ele completa dezessete anos. Ela vai a Barcelona para encontrar a outra progenitora do rapaz, Lola, uma mulher trans que nunca soube que ele existia. Lá, reencontra a velha amiga Agrado, mulher trans e trabalhadora sexual, e é atraída para um círculo de mulheres: uma atriz de teatro famosa, a amante problemática dessa atriz e uma jovem freira que trabalha num abrigo para quem faz trabalho sexual.
É um melodrama sobre luto, maternidade e as famílias que as pessoas constroem, cheio de teatro, cor e piadas.
Por que importa. Agrado é calorosa, afiada e completamente à vontade consigo mesma, e fica com a cena mais amada do filme: um monólogo engraçado e orgulhoso sobre o quanto lhe custou se tornar quem é, que termina com a ideia de que «a gente é mais autêntica quanto mais se parece com o que sonhou ser». Como escreveu Rebecca Bodenheimer para o RogerEbert.com, uma mulher trans julgando a feminilidade de uma mulher cis, e não o contrário, era uma posição que raramente se permitia às mulheres trans.
Bom saber. O filme é mais generoso com Agrado do que com Lola, a outra mulher trans da história, que fica quase sempre fora de cena e que Bodenheimer descreve como uma presença «imprudente e narcisista». As críticas da época, incluindo as da Variety e do The New York Times, usaram para as duas mulheres palavras e pronomes que a maioria das pessoas trans não usaria hoje.
Avisos de conteúdo: a morte súbita de um adolescente, uma mulher trans espancada, trabalho sexual, HIV e aids, dependência de drogas
Hedwig and the Angry Inch (Hedwig: Rock, Amor e Traição) (2001, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por John Cameron Mitchell, que também interpreta Hedwig, adaptado do musical de teatro de 1998 que ele criou com Stephen Trask, autor das canções; Estados Unidos.
Hedwig cresceu em Berlim Oriental, se apaixonou por um soldado americano e, para se casar com ele e sair de lá, aceitou sob pressão algo que foi mal feito e que dá título ao filme. Abandonada num parque de trailers no Kansas, ela se apaixona por Tommy, filho de um general, que a deixa e vira astro do rock de estádio com canções que ela escreveu.
Agora Hedwig faz turnê por restaurantes baratos de rede com a sua banda, a Angry Inch, seguindo a turnê de Tommy e contando a sua história em canções sobre amor, gênero e completude. É um musical de glam rock: engraçado, furioso, com uma sequência animada, um momento para cantar junto e grandes números musicais.
Por que importa. Muitas pessoas trans e pessoas que não se encaixam nas normas de gênero encontraram algo de si mesmas em Hedwig, uma artista glamorosa, ferida e furiosa cujo gênero não cabe na caixa de ninguém, e os criadores disseram que ficam contentes por pessoas trans se identificarem com ela. O filme pertence a uma categoria rara, a do musical de rock original, e as suas canções defendem uma ideia sobre gênero e completude que ainda toca fundo.
Bom saber. Hedwig não foi escrita como mulher trans. Em 2020, depois que ativistas trans defenderam que uma pessoa trans deveria ter sido escalada para uma montagem em Sydney, Mitchell e Trask disseram que a jornada de gênero da personagem é imposta a «um jovem gay afeminado» por um namorado e por um governo, e que o papel está mais próximo do drag, «uma máscara disponível para qualquer pessoa». Algumas pessoas trans leem Hedwig de outra forma.
Avisos de conteúdo: coerção por parte de um parceiro e de um Estado, abandono, trabalho sexual, conteúdo sexual
Famosos, mas criticados
Você provavelmente já ouviu falar destes, e muitas pessoas trans têm sentimentos ambíguos ou hostis em relação a eles. A queixa mais conhecida é sobre o elenco: intérpretes cis, geralmente homens, no papel de mulheres trans, enquanto intérpretes trans têm dificuldade para conseguir os mesmos papéis.
Em 2018, Scarlett Johansson desistiu de Rub & Tug, um filme planejado em que ela interpretaria Dante «Tex» Gill, depois de críticas de intérpretes trans como Trace Lysette, e disse no seu comunicado que entendia «por que muitos acham que ele deveria ser interpretado por uma pessoa transgênero».
O elenco não é o único problema. Algumas destas obras transformam o corpo de uma personagem trans numa reviravolta, uma foi dirigida por uma pessoa trans e boicotada mesmo assim, e uma provocou uma disputa pública sobre quem leva o crédito pela história trans. Estão aqui porque vão perguntar a você sobre elas, porque algumas ainda valem ser vistas de olhos abertos, e porque as discussões fazem parte da história.
The Crying Game (Traídos pelo Desejo) (1992, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Neil Jordan, Reino Unido. Stephen Rea interpreta Fergus, Forest Whitaker interpreta Jody e Jaye Davidson, estreante sem nenhuma experiência de atuação, interpreta Dil.
Um thriller que se transforma numa história de amor. Fergus, voluntário de uma unidade do IRA na Irlanda do Norte, é encarregado de vigiar Jody, um soldado britânico negro sequestrado, e os dois homens criam um vínculo improvável. Jody pede a Fergus que vá ver a namorada dele, Dil, em Londres, se algo lhe acontecer.
Mais tarde, Fergus vai para Londres com um novo nome, encontra Dil e se apaixona por ela enquanto tenta se manter à frente do próprio passado. O filme trata de raça, sexualidade e identidade, e foi feito com uma colcha de retalhos precária de financiamentos.
Por que importa. Foi um sucesso de bilheteria e um filme de Oscar com uma mulher trans num papel principal: ganhou o prêmio de melhor roteiro original, e Davidson recebeu uma indicação. A cena central foi parodiada mais tarde em Ace Ventura, então, mesmo que você nunca tenha visto o filme, provavelmente já topou com piadas que vêm dele. O documentário Disclosure o trata como um dos filmes que mais pesam na forma como as mulheres trans foram vistas na tela, o que faz dele algo que vale conhecer, seja qual for a sua decisão sobre assistir.
Bom saber. Nos Estados Unidos, a Miramax vendeu o filme com base num segredo: uma pessoa que foi executiva da empresa contou ao The Hollywood Reporter que a equipe ligava «jornalista por jornalista» para mantê-lo. O segredo era que Dil é trans, então o corpo dela, e o nojo do amante diante dele, viraram a reviravolta. Oliver Whitney, escrevendo na Vulture, situa o filme na tradição da «enganação trans». O documentário Disclosure (2020) se detém na cena; Sam Feder, que dirigiu o documentário, diz que as pessoas que participaram dele a acharam perturbadora, enquanto Zackary Drucker conta no filme que, na época, não viu o problema e só viu uma mulher linda. Para Feder, é possível «amar as coisas de forma crítica».
Avisos de conteúdo: sequestro e violência com armas de fogo, uma mulher trans recebida com nojo por um parceiro e atingida sem querer, nudez, pensamentos suicidas
Boys Don't Cry (Meninos Não Choram) (1999, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Kimberly Peirce, escrito por Peirce e Andy Bienen, Estados Unidos. Hilary Swank, que é cisgênero, interpreta Brandon Teena, e Chloë Sevigny interpreta Lana Tisdel.
Uma dramatização da vida de Brandon Teena, um jovem homem trans do interior do Nebraska assassinado em 1993. Brandon se muda para Falls City, se enturma com um grupo de jovens de lá e se apaixona por Lana.
O filme acompanha o que acontece quando as pessoas ao redor dele descobrem que ele é trans. É baseado em fatos reais, e Peirce ficcionalizou partes da história, então trate o filme como a versão dela da vida de Brandon, e não como um registro dessa vida.
Por que importa. Para boa parte do público em 1999, foi o primeiro retrato sensível de uma pessoa trans já visto. Jude Dry, do IndieWire, escreve que, de muitas formas, o filme deu início à conversa sobre representação trans no cinema que continua até hoje. Swank diz que pessoas lhe escreveram e a abordaram chorando para agradecer. Em 2019, o filme entrou no National Film Registry dos Estados Unidos.
Bom saber. Em novembro de 2016, estudantes do Reed College protestaram contra a visita de Peirce ao campus e interromperam a palestra dela depois de uma exibição. Segundo o Willamette Week, o protesto se voltava contra uma diretora que não é trans lucrar com a representação da violência contra pessoas trans, contra a escalação de Swank em vez de uma pessoa trans e contra a cena de estupro explícita; a faculdade criticou a forma como a palestra foi interrompida. Em 2019, Swank disse estar «feliz porque os tempos estão evoluindo» e porque as pessoas podem contar as próprias histórias. Outras objeções diziam respeito à exatidão: Peirce cortou Philip DeVine, um homem negro morto junto com Brandon, dizendo que não havia espaço, e a verdadeira Lana Tisdel entrou na Justiça por causa da forma como foi retratada.
Avisos de conteúdo: assédio e violência transfóbicos, um homem trans exposto à força, uma cena de estupro explícita, a polícia interrogando uma vítima sobre o gênero dele, assassinato (baseado em fatos reais)
Transamerica (Transamérica) (2005, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Duncan Tucker, Estados Unidos. Felicity Huffman interpreta Bree, com Kevin Zegers como Toby. Para se preparar, Huffman trabalhou com duas mulheres trans, Andrea James e Calpernia Addams, que a treinaram na voz.
Bree, uma mulher trans de Los Angeles, está perto de uma etapa muito esperada da sua transição quando chega uma ligação de uma cadeia de Nova York: um adolescente fugido de casa chamado Toby procura quem o gerou e que ele nunca conheceu, e essa pessoa é Bree. A terapeuta dela não dá a autorização para seguir em frente enquanto Bree não enfrentar isso.
Então Bree voa para Nova York, paga a fiança de Toby sem contar quem é, e os dois acabam atravessando o país de carro, com uma parada na casa da família de quem ela está afastada há muito tempo.
Por que importa. É uma comédia dramática de estrada com uma mulher trans como protagonista, e não como vítima ou vilã, e Huffman foi indicada ao Oscar pelo papel. Escrevendo no IndieWire em 2014, Dominic Clarke disse que o filme estava «tão à frente do seu tempo» que o mundo do cinema ainda não o tinha alcançado, observou como é raro um filme mostrar uma pessoa comum que por acaso é trans e elogiou a humanidade com que Tucker trata Bree, inclusive quando a família a rejeita.
Bom saber. Encontramos menos críticas publicadas por pessoas trans sobre este filme do que sobre os outros deste grupo, e a maior parte trata do elenco. Paris Lees, mulher trans que escrevia no The Independent em 2014, chamou a atuação de Huffman de «aproximação de uma mulher trans» e destacou uma cena que achou pouco plausível, mesmo com a produção tendo trabalhado com consultoria trans. A própria Huffman disse em 2014 que entende e apoia a ideia de que pessoas trans devem interpretar papéis trans, porque as pessoas trans foram «marginalizadas por muito tempo».
Avisos de conteúdo: uso do deadname, rejeição transfóbica da família, incluindo um momento invasivo da mãe de Bree, referências a abuso sexual infantil e ao suicídio de um dos pais no passado de Toby, trabalho sexual, uso de drogas
Dallas Buyers Club (Clube de Compras Dallas) (2013, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Jean-Marc Vallée, escrito por Craig Borten e Melisa Wallack, Estados Unidos. Matthew McConaughey interpreta Ron Woodroof, e Jared Leto, que não é trans, interpreta Rayon, uma mulher trans fictícia.
Baseado na história real de Ron Woodroof, um eletricista texano hétero que recebe o diagnóstico de HIV em meados dos anos 1980. Ele começa a trazer para os Estados Unidos medicamentos contra a aids não aprovados e a distribuí-los por meio de um clube de membros, desafiando o establishment médico.
No hospital, conhece Rayon, uma mulher trans que vive com aids, e depois de um começo hostil ela vira sua sócia e, aos poucos, sua amiga. Woodroof existiu; Rayon foi inventada para o filme.
Por que importa. É um filme muito visto sobre o início da crise da aids nos Estados Unidos, e deu à história de uma mulher trans um lugar de destaque num filme apreciado por milhões de pessoas. Leto ganhou um Globo de Ouro e depois um Oscar pelo papel. Paris Lees, mulher trans, foi assistir esperando se ofender e não se ofendeu: disse que o filme era ótimo, que Leto a levou às lágrimas e que você provavelmente deveria vê-lo, com uma sobrancelha levantada.
Bom saber. As críticas foram sobretudo sobre quem interpretou Rayon e sobre como ela foi escrita. Quando o filme estreou, um artigo de opinião de Susan Rohwer no Los Angeles Times defendeu que o papel deveria ter ido para uma pessoa trans, citando Shawna Virago, do San Francisco Transgender Film Festival, que o chamou de oportunidade perdida. O discurso de Leto no Globo de Ouro, em que chamou Rayon de «bela criatura» e brincou sobre depilar as pernas, provocou revolta. Paris Lees escreveu que Rayon é menos uma pessoa do que «uma função», calada enquanto até pessoas amigas a chamam de «ele». Num festival em 2014, uma mulher disse a Leto que «transmisoginia não merece prêmio»; ele rebateu e depois conversou com ela.
Avisos de conteúdo: doença e morte por aids, uso de drogas, misgendering constante, hostilidade homofóbica e transfóbica
Transparent (2014, série)
Quem fez: Criada por Joey Soloway para a Amazon, Estados Unidos; cinco temporadas, de 2014 a 2019. Soloway é uma pessoa não binária, usa they/them e aparecia nos créditos como Jill Soloway durante a produção da série. Jeffrey Tambor, que é cisgênero, interpretou Maura até ser demitido em 2018. Entre as pessoas trans que trabalharam na série estão a roteirista Our Lady J, a produtora Zackary Drucker, o produtor Rhys Ernst e a atriz Trace Lysette.
Os Pfefferman são uma família judia de Los Angeles. Quando Maura, professora universitária aposentada que tem três filhos adultos, se assume como mulher trans, a vida de todo mundo muda, e nem ela nem os filhos lidam sempre com isso com elegância.
A série acompanha a família inteira, muitas vezes com flashbacks da sua história, e termina com um final musical em 2019. Soloway se inspirou livremente na transição de um dos próprios pais para criar Maura.
Por que importa. No auge, a série foi apontada, nas palavras do The Hollywood Reporter, como «um farol do progressismo social», foi elogiada por organizações como a GLAAD e ganhou Globos de Ouro. Também tentou mudar quem fazia a série: Soloway escolheu Our Lady J entre um grupo de mulheres trans que se candidataram para escrever, e pessoas trans trabalharam na frente e atrás das câmeras. Se você se interessa por como a indústria começou a contratar talentos trans, a série faz parte dessa história.
Bom saber. A escalação de Tambor, um homem cis, foi questionada desde o início; numa das primeiras exibições, uma pessoa da plateia comparou a escolha ao blackface. Ao receber o Emmy em 2016, Tambor pediu à indústria que «dê uma chance aos talentos transgênero» e disse que «não ficaria infeliz se fosse o último homem cisgênero a interpretar uma mulher transgênero na televisão». No mesmo ano, Soloway disse que era «absolutamente inaceitável» escalar um homem cis como mulher trans. No fim de 2017, a ex-assistente dele, Van Barnes, e a atriz Trace Lysette, ambas mulheres trans, acusaram Tambor de assédio sexual. Ele negou os relatos, e foi demitido da série em fevereiro de 2018.
Avisos de conteúdo: misgendering e uso do deadname, exclusão transfóbica de espaços de mulheres, conversas sobre pensamentos suicidas, conflito familiar
The Danish Girl (A Garota Dinamarquesa) (2015, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Tom Hooper, com roteiro de Lucinda Coxon, baseado no romance de David Ebershoff de 2000; Reino Unido e Estados Unidos. Eddie Redmayne, um homem cis, interpreta Lili Elbe, e Alicia Vikander interpreta Gerda Wegener.
Um drama romântico ambientado na Copenhague e na Paris dos anos 1920. Gerda e o seu cônjuge vivem da pintura. Um dia, Gerda pede ao cônjuge que substitua uma modelo que está atrasada, e esse pequeno pedido abre uma porta: a pessoa com quem Gerda se casou começa a viver como Lili Elbe.
O filme acompanha a transição de Lili e o que ela exige das duas mulheres e do casamento. Ele chega à vida de Lili por meio de um romance que a ficcionalizou muito, então é uma versão da história dela, e não a história.
Por que importa. O filme colocou a vida de uma mulher trans no centro de uma grande produção de premiações, e é por ele que muita gente ouviu falar de Lili Elbe pela primeira vez. Vikander, que ganhou um Oscar por interpretar Gerda, disse em 2025 que o filme já parece «extremamente datado», mas que fez o tema ser «pelo menos discutido». Até Casey Plett, que não gostou dele, menciona uma mulher trans que conhece e que o adorou.
Bom saber. A crítica trans foi dura com o filme. Carol Grant, escrevendo no IndieWire como mulher trans no começo da própria transição, o chamou de «regressivo, redutor e prejudicial», argumentando que a câmera de Hooper olha com lascívia para as roupas e o corpo de Lili e reduz a feminilidade dela a estereótipos. A escritora Casey Plett, na The Walrus, achou o roteiro «atroz e chato», criticou uma cena inventada em que Lili é espancada e disse que uma mulher trans deveria ter feito o papel. O filme também toma muitas liberdades com a vida real de Elbe. Em 2021, Redmayne disse ao The Times que não aceitaria o papel hoje: «Fiz aquele filme com as melhores intenções, mas acho que foi um erro.»
Avisos de conteúdo: um ataque transfóbico na rua, maus-tratos psiquiátricos, incluindo a ameaça de internação forçada, misgendering, nudez, ambientes médicos
The Death and Life of Marsha P. Johnson (2017, documentário)
Quem fez: Dirigido por David France, que o escreveu com Mark Blane, Estados Unidos. O filme acompanha Victoria Cruz, mulher trans e investigadora do New York City Anti-Violence Project. France conhecia Johnson e cobriu a morte dela como jornalista.
Marsha P. Johnson, veterana da revolta de Stonewall que cofundou o grupo ativista STAR com Sylvia Rivera, foi encontrada no rio Hudson em 1992. A polícia classificou a morte como suicídio; muitas das pessoas que a conheciam nunca aceitaram isso.
O filme acompanha Victoria Cruz enquanto ela reabre as perguntas sobre a morte de Johnson, visitando velhas amizades e dando de cara com portas fechadas, e entrelaça imagens de arquivo de Johnson e Rivera dos seus anos de militância.
Por que importa. O filme levou Johnson e Rivera, com as próprias vozes e em imagens, a um público enorme, e liga a morte de Johnson à pouca atenção que a violência contra pessoas trans ainda recebe. Cruz sustenta o filme: Eric Kohn, do IndieWire, descreve uma investigadora trans que nunca desacelera. Se você quer ver e ouvir Johnson, e não apenas ler sobre ela, o filme reúne muitas imagens dela.
Bom saber. Quando o filme chegou à Netflix, Tourmaline (então conhecida como Reina Gossett), cineasta trans negra que tinha passado anos pesquisando Johnson, acusou France de se beneficiar do trabalho de arquivo dela e de um pedido de financiamento para o filme dela sobre Johnson, e de lucrar com vidas trans enquanto ela pegava dinheiro emprestado para pagar o aluguel. France negou ter se apropriado do trabalho dela, dizendo que pesquisava a história havia anos. Reconheceu os obstáculos muito mais pesados que ela enfrenta como mulher trans racializada e disse que «é errado que os nossos projetos não tenham recebido a mesma atenção». Uma investigação publicada pela Advocate em 2018 concluiu que France tinha licenciado a maior parte das imagens de arquivo de outras fontes, mas que o uso de 14 segundos de imagens que ele viu pela primeira vez numa apresentação de Tourmaline em 2015 sustentava a acusação dela. Tourmaline apresentou a disputa como uma questão de quem lucra com o trabalho de mulheres trans racializadas enquanto elas ficam sem crédito.
Avisos de conteúdo: a morte sem explicação de Marsha P. Johnson, indiferença policial, violência contra pessoas trans, luto
Girl (2018, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Lukas Dhont, escrito por Dhont e Angelo Tijssens; Bélgica, em neerlandês e francês. Lara é interpretada por Victor Polster, que não é trans. O filme foi inspirado em Nora Monsecour, bailarina profissional belga e mulher trans, que trabalhou com Dhont no projeto desde o início.
Lara, uma garota trans de 15 anos, consegue uma vaga em período de experiência numa escola de balé exigente da Antuérpia e se muda para lá com o irmão pequeno e o pai, que a apoia sem hesitar.
O filme fica muito perto de Lara: as horas de sapatilha de ponta, a dor no corpo, a impaciência para que a transição avance e a dureza com que ela se trata.
Por que importa. Ganhou a Caméra d'Or de melhor primeiro longa e a Queer Palm em Cannes. Para Monsecour, é a história dela: escreveu que fazer o filme a ajudou a se aceitar e que ele mostra o lar amoroso que ela teve a sorte de ter. É também um caso claro em que a crítica trans e a mulher trans cuja vida inspirou um filme veem a mesma obra de formas opostas, algo que vale saber antes de decidir se vai assistir.
Bom saber. Várias pessoas trans que escrevem crítica viram o filme de forma muito diferente da crítica em Cannes. Oliver Whitney, no The Hollywood Reporter, disse que o filme era um perigo para a comunidade trans, citando «um fascínio perturbador por corpos trans», uma câmera que insiste na parte de baixo do corpo de Lara, uma cena explícita de automutilação e uma mensagem prejudicial sobre a transição. Também houve quem questionasse a escalação de um ator cis numa história contada por dois homens cis. Monsecour respondeu no mesmo jornal que o filme «conta a minha história de um jeito que não mente» e que descartá-lo porque Dhont e o ator principal são cis «me ofende». Dhont disse que «todos queremos talentos trans na tela», mas defendeu a escalação com base na empatia.
Avisos de conteúdo: automutilação explícita, nudez repetida focada no corpo de Lara, bullying transfóbico, uso do deadname por um familiar, dor física por causa dos treinos
Adam (2019, longa de ficção)
Quem fez: Dirigido por Rhys Ernst, cineasta trans, a partir de um roteiro de Ariel Schrag que adapta o romance dela de 2014, Estados Unidos. Nicholas Alexander interpreta Adam, e o filme foi feito com várias pessoas trans no elenco.
No verão de 2006, Adam, um adolescente hétero e tímido, vai passar uma temporada com a irmã mais velha, Casey, em Nova York, onde o mundo dela é queer e trans. Numa festa, conhece Gillian, uma lésbica, que presume que ele é um homem trans.
Adam não a corrige, e mantém a mentira à medida que a relação cresce e que ele é acolhido em espaços onde as comunidades lésbica e trans se encontram e discutem.
Por que importa. É um filme de um diretor trans que pega uma ideia prejudicial e antiga, a de que pessoas trans enganam as outras, e a vira do avesso. Oliver Whitney, que escreve crítica e é trans, foi assistir com desconfiança por causa do romance e descobriu que o filme subverte com inteligência a história da «enganação trans», cutuca a pressão sobre pessoas trans para revelarem que são trans e mostra um jovem cis aprendendo com um homem trans uma masculinidade mais saudável.
Bom saber. A premissa provocou um boicote antes que a maioria das pessoas tivesse visto o filme: petições com mais de 6.000 assinaturas o chamaram de homofóbico e transfóbico, apoiando-se nas críticas ao romance de Schrag, que o resenhista Tom Leger chamou de «estranho, doloroso e bizarro» na forma como trata os homens trans. Um figurante trans também disse ter sofrido misgendering no set. Ernst disse que o filme se afasta do livro em pontos importantes, Whitney observou que ele deixa de fora a cena mais criticada do romance, e Ernst acrescentou que «há uma guerra contra a nuance neste momento». Sobre as denúncias do set, ele disse que alguém «pode ter sofrido misgendering sem querer», apesar do treinamento da equipe.
Avisos de conteúdo: um personagem cis que mente dizendo ser trans, misgendering, discussões da época sobre excluir mulheres trans de espaços de mulheres
Emilia Pérez (2024, longa de ficção)
Quem fez: Escrito e dirigido por Jacques Audiard, França, em espanhol. Karla Sofía Gascón, mulher trans espanhola, interpreta o papel-título, com Zoe Saldaña como a advogada Rita, e Selena Gomez.
Um musical policial que o diretor chama de ópera. Rita, advogada da Cidade do México sem muito sucesso que ganha causas contra a própria consciência, recebe uma proposta de trabalho secreta e muito bem paga. Quem faz a proposta é uma figura temida à frente de um cartel, que quer a ajuda dela para forjar uma morte, desaparecer e fazer a transição.
O filme mistura canções, melodrama e violência de cartel no volume máximo, e acompanha o que acontece depois que a nova vida começa.
Por que importa. Foi um filme gigantesco nas premiações: ganhou o Prêmio do Júri em Cannes e quatro Globos de Ouro, recebeu 13 indicações ao Oscar, e Gascón se tornou a primeira pessoa abertamente trans indicada a um Oscar de atuação. Seja qual for a sua opinião sobre o filme, essa indicação foi inédita, e as brigas em torno dele já fazem parte da história recente do cinema trans.
Bom saber. Entre as críticas mais duras estavam as de pessoas trans. A GLAAD chamou o filme de «um retrato profundamente retrógrado de uma mulher trans» e observou que os primeiros elogios em Cannes vieram de pessoas que não eram trans; Drew Burnett Gregory, mulher trans que escreve na Autostraddle, o chamou de «um desastre glorioso» construído sobre clichês conhecidos. No México, muita gente zombou do espanhol artificial, dos estereótipos e do fato de só uma pessoa do elenco principal ser mexicana; Audiard respondeu que é «uma ópera, e não uma crítica a qualquer coisa sobre o México». No início de 2025, publicações antigas de Gascón sobre muçulmanos, George Floyd e a diversidade no Oscar voltaram à tona. Ela disse lamentar profundamente; Audiard as chamou de «odiosas».
Avisos de conteúdo: violência e assassinatos de cartel, sequestro, a busca por vítimas de desaparecimento forçado, personagens que recuam diante do corpo de uma mulher trans, misgendering
Por onde seguir
Algumas destas obras são mais fáceis de assistir com outras pessoas trans do que sem companhia, e a conversa depois é metade da graça. Se você ainda está procurando essas pessoas, como fazer amigos trans e como encontrar um grupo de apoio trans são bons lugares para começar.
Para conhecer a história por trás de alguns destes filmes, leia os nossos textos sobre Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e Lili Elbe. Se você prefere ler a assistir, o guia que acompanha este é o de livros escritos por pessoas trans e não binárias.
Uma lista como esta envelhece. Surgem obras novas, as pessoas mudam a forma como se descrevem, e a opinião da crítica se move. Se você encontrar um erro, um crédito que atribuímos mal ou algo que deveria estar aqui, a página de contato chega até nós.

Wren · Redação
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