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Identidade

Drag queen é trans? A diferença entre fazer drag e ser trans

Drag é algo que se faz num palco; ser trans é quem alguém é, no palco e fora dele. Algumas pessoas são as duas coisas, e a maioria é só uma delas ou nenhuma.

Wren

Drag é uma performance: as pessoas se caracterizam e brincam com o gênero, geralmente para uma plateia. Ser trans é uma identidade: significa que o gênero de alguém não é aquele que lhe foi atribuído ao nascer, e isso não se desliga quando o show acaba. Uma pessoa pode fazer drag, ser trans, as duas coisas ou nenhuma delas, e a maioria das pessoas trans nunca fez drag. As duas coisas são confundidas há muito tempo, por motivos em parte históricos, e essa confusão ainda tem consequências.

O que é drag?

Drag é uma forma de entretenimento em que as pessoas se caracterizam e se apresentam, geralmente de um jeito exagerado: dublagem (o lip sync), canto, dança, comédia e, às vezes, sátira política. Uma drag queen encena uma feminilidade levada ao extremo, e um drag king, uma masculinidade levada ao extremo. Muitas pessoas que fazem drag criam uma persona com nome, visual e às vezes pronomes próprios, e muitas saem dela depois do show.

A origem da palavra é incerta. Ela surgiu como gíria do teatro britânico no século XIX, e o primeiro uso registrado para atores com roupas de mulher data de 1870. A prática em si é muito mais antiga. Os papéis femininos no teatro de Shakespeare eram interpretados por meninos e rapazes, porque as mulheres não podiam subir ao palco público. No kabuki japonês, atores homens chamados onnagata interpretam papéis femininos desde que as mulheres foram proibidas de se apresentar, em 1629. A pantomime britânica, um tipo de espetáculo cômico para toda a família, ainda escala um homem para o papel da dame e, tradicionalmente, uma jovem para o papel do principal boy.

Eram convenções teatrais, muitas delas nascidas de regras que mantinham as mulheres longe do palco. O drag de hoje conserva o mesmo núcleo: um figurino, uma personagem e um show, e boa parte da graça vem de todo mundo estar por dentro da brincadeira.

O que significa ser trans?

Transgênero, ou trans, descreve alguém cujo gênero não é aquele que lhe foi atribuído ao nascer. Não é um figurino nem uma personagem, e não há plateia: é quem a pessoa é no trabalho, no mercado e dormindo. Não depende de roupa, hormônios, cirurgia nem de passing.

Então, quando uma pessoa trans pede para ser chamada por um novo nome e novos pronomes, isso não é uma persona de palco. A Advocates for Trans Equality, organização americana de defesa dos direitos das pessoas trans, resume a diferença de forma simples: artistas drag podem sair de um papel, enquanto o nome e os pronomes de uma pessoa trans fazem parte da identidade dela. E acrescenta que chamar de drag a apresentação cotidiana de uma pessoa trans magoa, porque sugere que a identidade dela é um show que ela está encenando.

A distinção útil é entre expressão de gênero, ou seja, a aparência e o jeito exteriores, e identidade de gênero. O drag brinca com a expressão, em volume máximo e de propósito. Ser trans diz respeito à identidade, e a expressão cotidiana de uma pessoa trans pode ser tão discreta ou tão extravagante quanto a de qualquer outra pessoa. Pessoas não binárias fazem parte do mesmo quadro, e a pergunta se a não binariedade conta como trans tem uma resposta própria.

Drag queens são mulheres trans?

Geralmente não, às vezes sim, e nunca por definição. Historicamente, a maioria das drag queens era de homens gays, e o guia de mídia da GLAAD, a organização americana LGBTQ voltada para a mídia, diz que, ainda hoje, muitas drag queens são homens gays cisgênero. Mas os shows de drag sempre incluíram mulheres trans e outras pessoas de gênero diverso. A GLAAD observa que algumas artistas trans começaram a carreira sendo vistas como homens gays e foram atraídas pelo drag porque era um dos poucos lugares onde a feminilidade delas era aceita e até celebrada. Depois de perceberem que eram mulheres trans, muitas continuaram se apresentando, pela renda e pelos amigos e pela comunidade que tinham encontrado ali. Antes de a palavra transgênero se popularizar, algumas dessas mulheres se definiam como female impersonators, algo como «imitadoras de mulheres», ou como showgirls.

Também funciona no sentido contrário. A maioria das mulheres trans nunca se apresentou em drag, e a GLAAD observa que elas se frustram quando a vida delas como mulheres é confundida com um show. O guia da GLAAD é direto: mulheres trans são mulheres e, a menos que estejam no palco se apresentando num show de drag, não são drag queens.

O show de drag mais conhecido da televisão teve a sua própria discussão sobre isso. Em março de 2018, RuPaul, apresentador de RuPaul's Drag Race, disse ao The Guardian que «provavelmente não» aceitaria na competição alguém que tivesse feito a transição. Ex-participantes reagiram. Sasha Velour, que detinha o título na época, respondeu no Twitter: «O meu drag nasceu numa comunidade cheia de mulheres trans, homens trans e pessoas de gênero não conforme fazendo drag.» RuPaul pediu desculpas dois dias depois da publicação da entrevista. Artistas trans fazem parte do programa desde as primeiras temporadas, e várias dessas pessoas se assumiram durante a participação ou depois dela. Peppermint foi a primeira pessoa a entrar na competição já abertamente trans, em 2017; Gottmik, o primeiro homem abertamente trans, em 2021; e, em 2023, Sasha Colby se tornou a primeira pessoa trans a vencer uma temporada da versão americana.

Como drag e trans se misturaram?

Em parte porque, durante a maior parte da história moderna, não existiam palavras para distinguir uma coisa da outra. Quando o médico alemão Magnus Hirschfeld escreveu sobre gênero em 1910, a categoria dele abrangia tanto pessoas que se vestiam ou se apresentavam em drag quanto pessoas cujo gênero era diferente daquele atribuído ao nascer, como explica o US Holocaust Memorial Museum.

Nos Estados Unidos, a primeira pessoa conhecida por ter se chamado de rainha do drag (the queen of drag) foi William Dorsey Swann, nascido escravizado em Maryland, que organizava bailes drag em Washington nas décadas de 1880 e 1890. Em meados do século XX, drag queen podia significar quem se apresentava num palco ou alguém que usava roupas de mulher na rua, o que na época era ilegal em Nova York, e os female impersonators profissionais se esforçavam para separar o seu número de toda a vida queer. Enquanto isso, os mesmos bares, bailes e batidas policiais reuniam homens gays, drag queens e mulheres trans, como na revolta da Compton's Cafeteria em 1966 e na cena dos balls mostrada em Paris Is Burning. O nosso perfil de Marsha P. Johnson explica por que ela é lembrada tanto como drag queen quanto como mulher trans.

Uma parte é puro descuido. A GLAAD observa que as pessoas ainda confundem drag queens com todas as mulheres trans, que muitas vezes são descritas, de forma errada, como homens de vestido. E isso pode ir parar na lei. Em 2023, o Tennessee aprovou uma lei que restringe apresentações de «cabaré adulto» (adult cabaret) em propriedade pública ou em lugares onde crianças possam vê-las, e a definição incluía «male or female impersonators», ou seja, pessoas que imitam homens ou mulheres, uma expressão que a lei não definia. Ativistas LGBTQ alertaram que ela poderia ser usada de forma abusiva contra pessoas trans. Uma pessoa da assessoria de um dos autores da lei disse que ela não tinha nada a ver com a forma como alguém se veste ou se identifica, e a seção estadual da American Civil Liberties Union afirmou que ela não tornava ilegal ser trans em público. De um jeito ou de outro, o texto vago deixou as pessoas trans sem saber em que pé estavam.

Drag kings, pessoas não binárias no palco e todo o resto

O drag nunca foi só das queens. Mulheres se apresentavam como homens no palco muito antes de alguém dizer drag king, termo que aparece impresso pela primeira vez em 1972. Vesta Tilley foi um dos nomes mais conhecidos do music hall inglês entre os male impersonators, artistas que interpretavam homens, com uma carreira que foi de 1869 a 1920. No Harlem dos anos 1920, a estrela do blues Gladys Bentley, artista negra e lésbica, se apresentava nos clubes de fraque e cartola. De 1955 a 1969, Stormé DeLarverie percorreu os Estados Unidos e o Canadá como mestre de cerimônias da Jewel Box Revue, a única artista que interpretava homens numa trupe de artistas que interpretavam mulheres. Ela é muitas vezes associada à revolta de Stonewall, embora os registros não deixem claro se ela sequer estava lá naquela noite.

Ser butch e ser drag king são coisas diferentes, embora, para algumas pessoas que se apresentam, DeLarverie entre elas, a masculinidade no palco e fora dele fosse uma coisa só.

Drag kings são menos comuns e menos visíveis que as queens, mas têm uma longa história própria e, como as queens, podem ser de qualquer gênero: muitas dessas pessoas são mulheres, e homens trans e pessoas não binárias também se apresentam. Os shows modernos de drag king muitas vezes trazem personas que misturam traços masculinos e femininos, ou que não se encaixam em nenhum dos dois. A GLAAD acrescenta que mulheres trans, mulheres cis, homens trans e pessoas não binárias também se apresentam como drag queens, e esse é um dos motivos pelos quais muitas pessoas que fazem drag hoje preferem o termo mais amplo artista drag.

Pessoas não binárias e genderqueer que fazem drag mostram como pessoa e persona podem ser diferentes. Bimini Bon-Boulash, que ficou em segundo lugar na segunda temporada de RuPaul's Drag Race UK, é uma pessoa não binária e usa os pronomes they/them fora do drag e she/her no drag.

Que palavras usar?

  • Drag queen, drag king, artista drag, pessoa que se apresenta em drag. Esses termos descrevem o que alguém faz no palco. Em drag (in drag) descreve o figurino e a persona, não a pessoa por baixo deles.
  • O nome e os pronomes de drag para a persona. Muitas pessoas que fazem drag usam um nome e um conjunto de pronomes no drag e outros fora dele, do mesmo jeito que um ator não atende pelo nome da personagem depois do espetáculo. Se você não tiver certeza, use o nome artístico, ou pergunte.
  • Nunca chame de drag a vida cotidiana de uma pessoa trans. As roupas, o nome e os pronomes de uma mulher trans não são um figurino, e perguntar se ela faz drag não é um jeito educado de perguntar se ela é trans.
  • Crossdresser é outra coisa ainda. A GLAAD usa o termo para pessoas, geralmente homens, que às vezes usam roupas associadas a outro gênero, não como performance e sem querer fazer a transição. Ele não descreve artistas drag e nunca descreve mulheres trans.
  • Rótulos antigos carregam história. Female impersonator é um termo de palco mais antigo, e algumas mulheres trans o usavam para si mesmas antes de a palavra transgênero se popularizar. Faux queen, ou «queen falsa», antes usado para mulheres que se apresentam como queens, é criticado por sugerir que o drag delas é de mentira.
  • Deixe as ofensas onde estão. Algumas palavras que circulam em partes da cultura drag são ofensas quando dirigidas a pessoas trans. O fato de uma pessoa que faz drag usar uma palavra sobre si mesma não é um convite para usá-la com mais ninguém.

Fazer drag, sair com quem faz, ou nenhum dos dois

O drag pode fazer parte da vida de uma pessoa trans de muitas formas: um trabalho, um hobby, uma comunidade ou, como descreve a GLAAD, um lugar onde algumas mulheres trans viram a própria feminilidade ser aceita antes de entenderem que eram trans. Também pode não fazer parte dela de jeito nenhum. Nenhuma das duas coisas diz a você nada sobre o gênero de alguém que a própria pessoa não tenha dito.

Se você se apresenta, o seu perfil de encontros pode dizer isso, e ajuda contar como você prefere que se refiram a você dentro e fora do drag; o que colocar no perfil de encontros fala mais sobre isso. Se um match se apresenta, pergunte sobre isso como você perguntaria sobre qualquer arte: como é a persona, onde a pessoa se apresenta, como começou. Não trate isso como uma pista e não peça que a pessoa prove nada.

Se o que atrai você é brincar com o visual todos os dias, e não num palco, o nosso guia de estilo andrógino é um ponto de partida melhor. O T4TSpace é um aplicativo de encontros feito por e para pessoas trans e não binárias, e cada conta é verificada por uma pessoa; colocar ou não o drag no seu perfil é uma decisão só sua.

Wren · Redação

Wren é o nome sob o qual o blog do T4TSpace é publicado. Os artigos são escritos pela pequena equipe que constrói o app, assinados com um só nome para que a voz continue a mesma.

Para pessoas trans e não binárias. Uma pessoa verifica cada conta.As primeiras 1000 contas verificadas mantêm tudo gratuito.

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