Entre as personagens trans mais claras dos animes estão Shuichi Nitori e Yoshino Takatsuki em Wandering Son, Hana em Tokyo Godfathers, Lily Hoshikawa em Zombie Land Saga e Nao em Skip and Loafer. Muitos outros nomes das listas populares são leituras de fãs, ou vêm de comédias de troca de gênero que nunca foram escritas como histórias trans. Este guia organiza as personagens de acordo com o tipo real de evidência, e sinaliza os retratos que podem machucar.
Quatro tipos de evidência
As listas de personagens trans de anime misturam tipos de evidência muito diferentes. Esta página as organiza de quatro formas.
- Dito na obra. A própria história deixa claro. A palavra trans pode nunca ser pronunciada: uma personagem pode rejeitar o nome que recebeu ao nascer, ou contar a uma amizade que não é nem menino nem menina.
- Dito por quem criou ou por material oficial. A confirmação está fora dos episódios: uma entrevista, uma página de personagem num volume do mangá, um blog da equipe de desenvolvimento. O material oficial nem sempre concorda consigo mesmo.
- Lido como trans pelos fãs. A história dá pistas, às vezes fortes, mas nem ela nem quem a criou diz isso.
- Uma premissa de troca de gênero ou de cross-dressing. Magia, ciência ou um disfarce muda o corpo ou as roupas de uma personagem, mas ela é escrita com o seu gênero original. Algumas pessoas trans ainda encontram um pouco de si nessas histórias, mas elas não são histórias trans no mesmo sentido.
Atenção, spoilers: várias dessas personagens são reveladas como trans no meio da série.
Personagens que a própria história diz que são trans
Shuichi, Yoshino, Makoto e Yuki (Wandering Son, 2011)
O mangá de Takako Shimura acompanha Shuichi Nitori, uma criança que quer ser menina, e Yoshino Takatsuki, com quem tem amizade e que quer ser menino. Makoto Ariga, outra menina na mesma situação, se torna a amiga mais próxima de Shuichi, e uma mulher trans adulta, Yuki, dá conselhos às duas crianças. A autora escolheu de propósito uma criança perto da puberdade, pelo peso que o crescimento teria sobre essa personagem.
O anime, dirigido por Ei Aoki, foi exibido de janeiro a março de 2011 e começa quando as personagens entram nos anos finais do ensino fundamental. O mangá vai muito mais longe: no final, Yoshino decide continuar vivendo como menina, e Shuichi conta à namorada, Anna, sobre a sua identidade de gênero. A série foi retirada da Crunchyroll em abril de 2021.
Hana (Tokyo Godfathers, 2003)
No filme de Satoshi Kon, três pessoas em situação de rua encontram um bebê abandonado na véspera de Natal. Uma delas é Hana, uma mulher trans que sonha em ser mãe e se torna o coração dessa família improvisada. A crítica elogia a profundidade da personagem, com ressalvas: outros personagens a insultam e usam deliberadamente o gênero errado para ela no início, e alguém que escrevia sobre mulheres trans na mídia observou que ela é animada de um jeito mais caricatural do que os outros protagonistas, o que pode fazer a sua condição de mulher parecer uma encenação.
Lily Hoshikawa (Zombie Land Saga, 2018)
No episódio 8, exibido em 22 de novembro de 2018, o pai de Lily a reconhece, e o público descobre que ela foi uma atriz mirim que um dia se chamou Masao, um nome que ela insiste que não é mais dela. Depois de um momento de choque, as colegas zumbis da banda a aceitam. A crítica elogiou amplamente o arco. A resenha da Anime News Network também alertou que a morte dela, de choque ao encontrar um pelo no rosto aos 12 anos, é tratada como pastelão e pode banalizar a disforia; um texto da Anime Feminist a considerou insensível sem querer.
Yu Asuka (Stars Align, 2019)
No episódio 8 desse drama sobre tênis, Maki fala de Shou, um homem trans que cuidou dele na infância. Yu, responsável pela gestão do clube, confessa então que acha que é uma pessoa não binária, usando o termo japonês x-gender, mas que entrar numa categoria também não parece certo. Maki diz a Yu que não há necessidade de decidir agora.
Nao (Skip and Loafer, 2023)
Nao é a tia com quem Mitsumi mora em Tóquio, cabeleireira e mulher trans. A série não anuncia isso. No episódio 2, desconhecidos cochicham sobre Nao no trem, e Mitsumi simplesmente pega a mão da tia e continua conversando. A crítica destacou essa cena como um retrato realista do cotidiano das pessoas trans. Uma segunda temporada está prevista para abril de 2027.
Confirmadas por quem criou e por material oficial
Tiger e Magne (My Hero Academia)
Tiger, integrante da equipe de heróis Pussycats, é um homem trans. A história principal fala pouco disso: a confirmação vem da página de personagem dele no volume 9 do mangá de Kohei Horikoshi, que diz que ele foi designado do sexo feminino ao nascer e fez a transição na Tailândia há muito tempo.
Magne, uma vilã, é uma mulher trans, e aqui a história faz mais parte do trabalho. Os aliados a chamam de Big Sis (irmãzona), e depois que Overhaul a mata, Twice e Toga o corrigem quando ele erra o gênero dela, pelo menos na versão em inglês do anime. Um aviso: a morte dela é brutal.
Bridget (Guilty Gear Strive: Dual Rulers, 2025)
Bridget surgiu nos jogos de luta Guilty Gear em 2002, escrita como um menino criado como menina. Na sua volta, em Guilty Gear Strive, em 2022, ela se assume mulher. Quando fãs afirmaram que a localização em inglês tinha inventado isso, o criador do jogo, Daisuke Ishiwatari, escreveu no blog oficial da equipe de desenvolvimento que, depois da sua história, ela se identifica como mulher e o pronome correto é she. Ela tem um papel de destaque no anime de 2025 Guilty Gear Strive: Dual Rulers, que dá continuidade à história dos jogos.
Quem cria também pode acrescentar contexto a uma personagem que a história já confirma. Numa entrevista de 2021, o produtor de Zombie Land Saga, Nobuhiro Takenaka, disse que Lily não foi fácil de escrever, e que muitas das falas dela foram reescritas durante a gravação para equilibrar comédia e seriedade.
O material oficial também pode puxar para o outro lado. A divulgação de Zombie Land Saga em revistas japonesas, entre elas a Animage, descreveu Lily como um menino e apresentou o nome antigo dela como o seu nome verdadeiro. Em fevereiro de 2023, um vídeo promocional de My Hero Academia que celebrava as mulheres da série incluiu Tiger e deixou Magne de fora, e os fãs criticaram isso publicamente.
Lidas como trans pelos fãs, nunca confirmadas
Alluka Zoldyck (Hunter x Hunter, 2011)
Alluka nasceu depois de Killua na mesma família, e ele luta para protegê-la. Killua a chama de irmã e insiste que, sendo menina, ela deveria ter uma mordoma; a maior parte da família e dos criados se refere a ela como menino. Muita gente a lê como uma menina trans, e a CBR destaca como a história mostra a luta dela pela aceitação da família e o misgendering que sofre. A série nunca usa a palavra, e não encontramos nenhuma declaração do criador, Yoshihiro Togashi. A família dela também a mantém trancada e a chama de coisa, o que é difícil de assistir.
Yuka Ayukawa (Blue Period, 2021)
Yuka mistura os uniformes escolares de menino e de menina, as amizades usam o apelido Yuka-chan, e Yuka não se incomoda quando outras pessoas se referem a Yuka no masculino. Segundo a citação do anime feita pela CBR, Yuka pergunta o que há de tão estranho em querer ter um visual fofo e bonito, ou em um homem amar outro homem. Escrevendo durante a exibição do anime, a resenha da CBR leu essas pistas como sinal de que Yuka talvez seja de gênero fluido. Isso é uma leitura, não algo que a série diz com todas as letras. O episódio 3 inclui um encontro que termina com o garoto sentindo pena de Yuka, o que pode ser doloroso para parte do público.
Troca de gênero e cross-dressing: não são histórias trans
Algumas dessas personagens aparecem em listas de personagens trans de anime. As premissas mudam corpos ou roupas, mas as personagens são escritas com o gênero com que começaram.
- Ranma Saotome (Ranma ½). O mangá de Rumiko Takahashi foi publicado de 1987 a 1996, e o remake do estúdio MAPPA estreou na Netflix em outubro de 2024. Uma maldição transforma Ranma em menina sempre que ele é molhado com água fria. Um ensaio na Anime Feminist diz que, oficialmente, é a história de um garoto cis com uma maldição que muda o corpo e que, sem querer, funciona como alegoria da experiência transmasculina. O mesmo ensaio alerta que a série não é queer-friendly: um dos arcos reforça a ideia transfóbica de que as pessoas trans querem enganar os outros.
- Mahiro Oyama (Onimai: I'm Now Your Sister!, 2023). Um jovem recluso acorda como menina depois de um dos experimentos da irmã cientista, e precisa se acostumar à vida de uma menina dos anos finais do ensino fundamental. A recepção da crítica fora do Japão foi dividida.
- As Sailor Starlights (Sailor Moon Sailor Stars). No anime original, as três integrantes do grupo pop Three Lights têm corpos masculinos no dia a dia e se tornam mulheres quando se transformam; no mangá de Naoko Takeuchi, são mulheres disfarçadas de homens. Catherine E. Bailey, da Western Michigan University, observou que o segredo delas não é recebido com nojo quando vem à tona, mas hesitou em chamá-las de transgênero.
- Makoto Hanaoka (Senpai Is an Otokonoko, 2024). Makoto usa roupas femininas apesar da desaprovação da mãe. Analisando os três primeiros episódios, a Anime News Network observou que as legendas oficiais usavam he/him e que Makoto parecia à vontade sendo chamado de cara, mas deixou espaço para que isso mudasse ao longo da história.
Quando a tradução e o marketing erraram o gênero
Tokyo Godfathers. Quando o filme foi lançado, em 2003, os textos de imprensa e o material promocional descreviam Hana como uma ex-drag queen, e ela foi dublada por um homem. Uma análise da personagem de 2017 constatou que as legendas em inglês que pareciam ser as mais amplamente disponíveis se referiam a ela no masculino, embora os diálogos em japonês nunca façam isso. Elas também suavizavam um insulto que a chama de velho, escondendo o sentido da objeção dela, que é justamente não ser homem, e traduziam outro insulto com uma ofensa homofóbica em inglês. Em 2020, a distribuidora GKIDS lançou uma nova dublagem em inglês em que Hana tem a voz de Shakina Nayfack, uma atriz trans; quem preside a empresa disse que o objetivo era ajudar o público a sentir o que Satoshi Kon tinha tentado fazer.
Sailor Moon. A dublagem em inglês da DiC manteve o romance entre dois vilões, Malachite e Zoisite, mas transformou Zoisite em mulher para que o casal não fosse gay. A dublagem da Cloverway apresentou Sailor Uranus e Sailor Neptune, abertamente queer no original, como primas.
A acusação contrária. Com Lily, em Zombie Land Saga, e Bridget, em Guilty Gear, alguns fãs afirmaram que as pessoas que fizeram a tradução para o inglês tinham tornado as personagens trans. Nos dois casos, isso era falso: a identidade de Lily está no episódio em japonês, e quem criou Bridget confirmou a identidade dela pessoalmente.
Se uma cena parece diferente de como você se lembra, confira quais legendas ou qual dublagem você assistiu.
Por que os retratos mais antigos muitas vezes são piadas às custas das mulheres trans
Muitos retratos mais antigos se apoiam num personagem-tipo do cinema e da televisão japoneses. Kato Kenta, que pesquisa cinema na Meiji University, escreve que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, homens queer e mulheres trans nas telas muitas vezes assumiram a forma da okama, uma velha gíria para homens gays afeminados, artistas drag e mulheres trans que hoje é geralmente considerada ofensiva. Nos primeiros filmes do pós-guerra, profissionais do sexo homens escritos dessa forma, com fala e gestos afeminados, apareciam sobretudo para fazer rir, e Kato lê esses retratos como zombaria contra homens gays e preconceito contra mulheres trans.
Ele argumenta que a figura sobrevive, em personalidades afeminadas da televisão e num lutador com jeito de drag queen em One Piece, e que o público muitas vezes confunde essas personagens com identidades reais. Uma mulher trans desenhada a partir desse molde corre o risco do problema que uma crítica apontou em Hana: a sua condição de mulher começa a parecer uma encenação, uma espécie de paródia.
Essa história explica por que uma cena de revelação pode dar medo até numa série gentil. A resenha da Anime News Network admite ter se preparado para o pior na revelação de Lily, já que as comédias têm um histórico ruim com personagens trans. Se você quer saber no que está se metendo, estes são os principais pontos para os quais é bom estar preparado:
- Tokyo Godfathers: Hana é insultada e tratada deliberadamente pelo gênero errado no início, e pelo menos uma versão de legendas muito compartilhada piora as coisas.
- Zombie Land Saga, episódio 8: a morte de Lily é tratada como pastelão, e uma personagem ri do nome antigo dela.
- My Hero Academia: Magne é morta de forma brutal.
- Hunter x Hunter: Alluka é trancada pela família e tratada como um objeto.
- Wandering Son: a irmã de Shuichi diz que é nojento ela usar vestido, e o dia em que Shuichi vai à escola com uniforme de menina provoca um alvoroço.
- Ranma ½: o arco de Tsubasa trata uma personagem que não se conforma às normas de gênero como alguém que engana os outros.
Para onde ir depois
Se você quer uma história trans contada de dentro, olhe para os mangás além dos animes. Boys Run the Riot é um mangá, não um anime: Keito Gaku, um homem trans, escreveu e desenhou a obra, que acompanha Ryo, um garoto trans do ensino médio que cria uma marca de moda de rua com um amigo. A Kodansha USA contratou uma equipe inteiramente trans para traduzir e editar a edição em inglês. Mais livros assim estão na nossa lista de livros escritos por pessoas trans e não binárias, e para mais histórias nas telas, veja filmes e séries trans e não binários.
Uma leitura de fã pode importar para você sem ser canônica, e uma personagem trans canônica ainda pode ser mal escrita. Saber qual é qual permite escolher o que assistir, e o que pular num dia ruim.

Wren · Redação
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