WLW quer dizer women loving women, mulheres que amam mulheres: uma mulher que sente atração por mulheres, sinta ela atração também por outros gêneros ou não. Sáfica cobre o mesmo terreno e um pouco mais, porque abrange também pessoas não binárias que sentem atração por mulheres. Translésbica (transbian, em inglês) é a mais restrita das três: nomeia uma mulher trans que é lésbica. As duas primeiras descrevem para onde vai a atração, a terceira descreve uma pessoa, e essa diferença explica boa parte da forma como são usadas.
As três palavras lado a lado
Cada palavra tem a sua página no glossário. Esta aqui as coloca uma ao lado da outra.
- WLW (women loving women, mulheres que amam mulheres). Diz duas coisas: você é mulher e sente atração por mulheres. Não diz nada sobre se as mulheres são as únicas pessoas por quem você sente atração, então lésbicas, mulheres bissexuais e mulheres pansexuais podem todas usar a palavra.
- Sáfica. Diz para onde vai a sua atração, na direção das mulheres, e deixa o seu próprio gênero em aberto. É isso que a torna útil para grupos que incluem pessoas não binárias.
- Translésbica. Diz quem você é: uma mulher trans, e lésbica. Não é uma terceira orientação ao lado de lésbica. É lésbica, com a parte trans descrevendo a pessoa, e não a atração dela.
Mulheres trans são WLW e sáficas exatamente nos mesmos termos que as mulheres cis, e translésbica é uma palavra só delas. O que muda de uma palavra para outra é o quanto ela diz sobre quem a usa, e se dá a entender que as mulheres são as únicas pessoas por quem essa pessoa se sente atraída.
De onde vem cada palavra
WLW: uma sigla da era da Usenet
O uso mais antigo que conseguimos encontrar é de 1996. O Wiktionary registra WLW numa mensagem de outubro daquele ano no soc.women.lesbian-and-bi, um grupo de discussão da Usenet para mulheres lésbicas e bissexuais.
A PFLAG, organização americana de apoio e defesa de direitos, diz que o termo é usado com frequência em comunidades não brancas, e que nasceu de um pressuposto mais antigo de que toda mulher com parceiras mulheres era lésbica. À medida que a compreensão da sexualidade se ampliou, escreve a PFLAG, WLW substituiu em grande parte lésbica como termo agregador. O caminho que a sigla fez da Usenet até as bios de hoje não está bem documentado, e não encontramos nenhum relato confiável sobre isso.
Sáfica: o nome de uma poeta, reaproveitado mais de uma vez
Safo foi uma poeta da ilha de Lesbos, e tanto lésbica quanto sáfica vêm dela. As datas da sua vida são incertas: a PinkNews a situa por volta do fim do século VII a.C. e do início do século VI a.C., enquanto a NBC News indica de 630 a 570 a.C.
Em inglês, o adjetivo começou como uma palavra literária. O Etymonline data Sapphic de por volta de 1500, com o sentido de relativo a Safo ou aos seus poemas, em especial à sua métrica; o sentido de relações sexuais entre mulheres só aparece na década de 1890.
A palavra ressurgiu na imprensa lésbica: a NBC News observa que várias publicações lésbicas dos anos 1970 e 1980 levavam Safo no nome. O interesse na internet veio depois, e de forma irregular: segundo a mesma reportagem, as buscas no Google por sapphic atingiram o pico em dezembro de 2005, caíram durante uns quinze anos e sobem sem parar desde 2020. O sentido que voltou com essa alta é o amplo, que abrange lésbicas, mulheres bissexuais e pansexuais, e pessoas trans e não binárias.
Translésbica: uma junção com poucos registros escritos
Em inglês, transbian junta trans e lesbian, e o Wiktionary a classifica como informal. Os registros escritos são escassos. Os usos datados mais antigos reunidos pelo Wiktionary são acadêmicos: a estudiosa de literatura Virginia Blain usou a palavra em artigos sobre poesia vitoriana em 2003 e 2004. É o uso impresso mais antigo que encontramos, o que não prova que a palavra tenha nascido ali.
As citações posteriores se aproximam do cotidiano. Num livro de 2010 de Red Jordan Arobateau, uma reunião trans numa clínica termina depois de uma discussão sobre transbians. Um artigo do Philadelphia Gay News citou a palavra em 2014, e uma tese de 2015 da Stony Brook University registra uma mulher trans de 69 anos que se descreve como transbian. O Cambridge Advanced Learner's Dictionary tem hoje um verbete para ela.
O que cada palavra inclui, e o que deixa de fora
É na exclusividade que as palavras se separam. O Wiktionary define WLW como uma mulher que sente atração, não necessariamente exclusiva, por outras mulheres, e a definição de sáfica da PFLAG abrange mulheres lésbicas, bissexuais, pansexuais ou que amam pessoas do mesmo gênero de alguma outra forma. Nenhuma das duas palavras pergunta se as mulheres são as únicas pessoas que você quer.
Translésbica contém lésbica, então carrega o que quer que lésbica signifique para a mulher que a usa. Isso é menos fixo do que parece. Num estudo de 2024 com 25 pessoas sáficas usuárias de aplicativos de encontros, Michael Ann DeVito e equipe observam que lésbica às vezes foi definida de forma estrita, mas que os limites da categoria historicamente estiveram em movimento. As pessoas participantes descreviam a própria sexualidade com palavras que incluíam lésbica bi e sáfica assexual, ao lado de lésbica, pansexual e T4T.
A atração aqui também não precisa ser sexual. A PFLAG define lésbica como uma mulher que sente atração emocional, romântica e/ou física por outras mulheres, e é por isso que uma pessoa assexual pode ser sáfica sem contradição.
Há ainda a questão de quem pode usar cada palavra sobre si. Uma mulher cis pode ser WLW, sáfica ou lésbica, mas não translésbica, porque a parte trans é justamente o ponto. E WLW, ao contrário de sáfica, coloca a condição de mulher de quem fala dentro da própria palavra, o que importa para a pergunta seguinte.
Onde ficam as pessoas não binárias
É aqui que as três palavras mais se diferenciam.
WLW começa com W de women, mulheres, mas na prática se estica: a PinkNews, por exemplo, descreve as mulheres que amam mulheres como um grupo que inclui pessoas não binárias. Ainda assim, algumas pessoas não binárias preferem não reivindicar um gênero que não cabe bem nelas, e usam NBLW, non-binary loving women, pessoas não binárias que amam mulheres, que a LGBTQIA+ Wiki registra como outro nome de trixic.
Sáfica é a que cria menos caso. A NBC News e o centro de recursos para a diversidade sexual e de gênero da Universidade da Califórnia em Santa Barbara a descrevem como uma palavra que inclui pessoas não binárias. Quando a equipe de DeVito precisou de um termo guarda-chuva para o estudo, escolheu sáfica em vez de mulheres que amam mulheres, dizendo que era mais próximo da realidade vivida pelas pessoas participantes. Segundo a classificação aproximada feita pela própria equipe, 56% do grupo eram pessoas não binárias, 24% mulheres trans e 20% mulheres cis.
Lésbica também tem espaço. A PFLAG tem um verbete para lésbica não binária, uma pessoa não binária cuja atração principal é por mulheres, e observa que o lesbianismo historicamente incluiu pessoas com relações variadas com a comunidade lésbica. O centro de Santa Barbara também diz que algumas pessoas não binárias designadas do sexo feminino ao nascer usam lésbica.
Translésbica é a menos flexível. O dicionário Cambridge define transbian a partir das mulheres trans. A LGBTQIA+ Wiki é um pouco mais ampla e descreve uma pessoa trans, normalmente transfeminina, que é lésbica, o que abre espaço para lésbicas não binárias transfemininas que queiram a palavra. Se você não tem certeza de que ela serve para você, sáfica nunca vai pedir que você resolva a questão antes.
Por que algumas mulheres trans escolhem translésbica, e por que outras não
Há pouca coisa publicada sobre a palavra em si. Boa parte do que encontramos estava em fóruns e em posts de redes sociais, nos quais não nos apoiamos aqui. O que encontramos aponta nas duas direções, às vezes vindo da mesma pessoa.
O argumento a favor é que ela nomeia duas coisas ao mesmo tempo. Pippa Catterall, mulher trans e professora de história e políticas públicas na University of Westminster, disse ao THEGAYUK em 2019 que a palavra é usada para diferenciar lésbicas trans de lésbicas cis. A escritora Mey Rude defendeu a ideia mais ampla na Autostraddle em 2015, sem usar a palavra: ela se descreveu como lésbica e mulher trans, e escreveu que gostava de viver nas duas comunidades em vez de ter que escolher uma delas. Uma única palavra que contém as duas coisas é uma forma de recusar essa escolha.
O argumento contra também veio de Catterall. Na mesma explicação, ela disse que nem todas as mulheres trans se sentem à vontade com o termo, porque ele pode ser visto como uma negação da sua transição. Acrescentou que algumas lésbicas são hostis à palavra, sobretudo as que essencializam o gênero e negam que a transição seja sequer possível. São duas objeções muito diferentes, e só a primeira vem das próprias mulheres trans.
As duas escolhas são feitas por mulheres trans sobre a própria vida, e nenhuma delas é um erro. A regra prática vem daí: só chame alguém de translésbica depois que ela mesma tiver usado a palavra, e se ela diz lésbica, quer dizer lésbica.
O que as palavras sinalizam num perfil de encontros
Num perfil, cada uma dessas palavras é um atalho, e um atalho dá a direção, não os detalhes.
- WLW ou sáfica na bio diz que a pessoa se interessa por mulheres. Não diz se as mulheres são as únicas pessoas com quem ela sai, e sáfica não diz qual é o gênero da própria pessoa. Leia os pronomes e o resto do perfil antes de presumir qualquer uma dessas coisas.
- Lésbica é a mais específica das palavras de orientação, e mesmo assim não é um contrato: cada pessoa a usa do seu jeito, como mostram as lésbicas bi do estudo de DeVito. Se a exclusividade importa para você, pergunte.
- Translésbica na bio é uma revelação além de uma orientação: diz a quem lê que ela é trans. Junto com t4t, diz também que ela prefere sair com outras pessoas trans.
Esse tipo de abertura tem um custo, e o estudo fala disso com franqueza. DeVito e equipe observam que as pessoas sáficas trans e não binárias enfrentam mais discriminação, fetichização e estigma por parte de possíveis parceiras e parceiros, e precisam lidar com chasers. Uma pessoa participante alertou que informações detalhadas sobre identidade num perfil podem trazer mais problemas com chasers, e uma mulher trans do estudo disse que não revela mais que é trans nos aplicativos de encontros e conta às pessoas quando fica mais próxima delas. Então um perfil sem a palavra não diz nada, e um perfil com ela não é um convite para perguntar sobre o corpo de ninguém. Se um match parece mais interessado no rótulo do que na pessoa, como saber se alguém é um chaser mostra os sinais.
Se você está escrevendo o seu, escolha a palavra sobre a qual você ficaria à vontade para responder perguntas num primeiro encontro, e lembre que dá para usar mais de uma. Uma pessoa participante do mesmo estudo queria que os aplicativos permitissem selecionar mulher, trans e não binária ao mesmo tempo; numa bio, nada impede isso. O que colocar no perfil de encontros cobre o resto. Num espaço só para pessoas trans como o T4TSpace, onde toda conta é verificada por uma pessoa, a metade trans de translésbica já está dada.
Lésbica, e as bandeiras
Toda lésbica é sáfica, e toda mulher lésbica é WLW. O contrário não é verdade, e é exatamente por isso que as palavras mais amplas existem, e por isso lésbica mantém o seu próprio sentido para as mulheres que querem exatamente isso.
Uma translésbica é lésbica. A palavra acrescenta um detalhe; não abre uma sala separada. O lugar das mulheres trans na comunidade lésbica já foi longamente discutido, e DeVito e equipe situam boa parte desse debate na questão de quem conta como mulher. Em dezembro de 2018, sete publicações para mulheres lésbicas, bissexuais e queer, entre elas DIVA, Curve e Autostraddle, assinaram uma declaração conjunta afirmando que mulheres trans são mulheres e fazem parte da comunidade delas, e que apoiar mulheres trans não apaga as identidades lésbicas.
Não encontramos nenhuma bandeira específica de WLW com origem documentada. As outras palavras têm estas:
- Lésbica: a bandeira laranja, branca e rosa atribuída a Emily Gwen em 2018, cuja faixa branca, segundo ela, representa as relações particulares com a feminilidade. A página da bandeira lésbica traz as cores, e por que existem tantas bandeiras lésbicas conta a história mais longa.
- Sáfica: faixas rosa em volta de um centro lavanda-claro, com violetas, uma flor associada a Safo. A PinkNews descreve um par de violetas; a versão da página da bandeira sáfica tem uma só, e quem a desenhou não está documentado de forma confiável.
- Translésbica: nenhuma bandeira única. A LGBTQIA+ Wiki lista pelo menos seis desenhos publicados na internet entre 2018 e 2023, e não aponta nenhum como padrão. Hastear a bandeira lésbica ao lado da bandeira transgênero diz a mesma coisa sem precisar esperar por uma.
Nenhuma das três palavras, e nenhuma das bandeiras, é um teste. Elas estão aí para as pessoas a quem servem, pelo tempo que servirem.

Wren · Redação
Wren é o nome sob o qual o blog do T4TSpace é publicado. Os artigos são escritos pela pequena equipe que constrói o app, assinados com um só nome para que a voz continue a mesma.