Não é o seu tipo
Ele se desmancha em elogios. Só na quarta mensagem você ouve o que ele está realmente dizendo.
A primeira mensagem é lisonjeira, o que é o primeiro sinal, embora você ainda não conte isso como um. Diz que você é linda. Diz que sempre se sentiu atraído por mulheres como você.
Mulheres como você. Você lê a expressão duas vezes e deixa o celular virado para baixo na bancada, enquanto a água do macarrão ferve.
A segunda mensagem pergunta o que você vai fazer hoje à noite. A terceira diz que ele tem a mente muito aberta, que nunca teve problema com «isso», e que os amigos dele não precisam saber. A quarta pergunta se você é «pré ou pós».
Você conhece essa conversa. Poderia escrevê-la por ele. De certa forma, já escreveu, uma dúzia de vezes, com paciência, nos anos em que achava que explicar era o preço de ser escolhida.
Você escorre o macarrão. Pega o celular. Não responde, porque uma resposta é uma porta, e você já aprendeu aonde essa vai dar. Toca em bloquear, e depois em denunciar, porque a próxima pessoa para quem ele escrever pode ainda não ter jantado e ter menos paciência do que você.
Leva onze segundos. Você faz questão de conferir.
Depois você janta em pé, pega o casaco e vai para a noite de jogos do centro comunitário, onde uma mulher chamada Priya arrasa todo mundo num jogo de tabuleiro sobre trens, e um cara de gorro verde te pergunta se você quer entrar no time dele na semana que vem.
Ali ninguém te diz que você é corajosa, nem linda, nem que faz o tipo de alguém. Alguém te diz que você é um desastre nos trens. É a coisa mais gentil que te disseram o dia inteiro.