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Dia da Memória Trans (TDoR): história e como participar

Todo 20 de novembro, vigílias leem em voz alta os nomes das pessoas trans mortas no último ano. De onde veio o dia, o que as listas deixam de fora e como participar cuidando de você.

Wren

Aviso de conteúdo: este artigo fala de violência e morte, incluindo assassinato e suicídio. O Dia da Memória Trans, em inglês Trans Day of Remembrance, Transgender Day of Remembrance ou TDoR, acontece todo ano em 20 de novembro para lembrar as pessoas trans mortas pela violência transfóbica. Ele começou em 1999, um ano depois do assassinato de Rita Hester, uma mulher trans negra, em Boston, e normalmente é marcado com vigílias à luz de velas em que os nomes das pessoas mortas são lidos em voz alta.

Por que 20 de novembro: Rita Hester e Chanelle Pickett

Rita Hester foi morta no seu apartamento em Allston, um bairro de Boston, em 28 de novembro de 1998, dois dias antes de completar 35 anos. Amigas e amigos lembram dela como uma figura conhecida dos bares e da cena rock da cidade. O assassinato nunca foi solucionado; a polícia de Boston passou o caso para um novo detetive em 2023 e renovou o pedido de informações no 25º aniversário.

O que veio depois da morte dela fez do caso um marco. Os jornais locais, incluindo o jornal LGBTQ de Boston Bay Windows, fizeram misgendering com ela e publicaram seu deadname. Segundo a NBC News, cerca de 50 pessoas trans e aliadas marcharam em protesto da sede do Boston Herald até a do Bay Windows. Uma vigília à luz de velas por ela, em 4 de dezembro, reuniu cerca de 250 pessoas.

Ela não foi a primeira. Em novembro de 1995, Chanelle Pickett, outra mulher trans negra, foi morta em Watertown, bem perto de Boston. O homem acusado do assassinato foi condenado apenas por agressão e lesão corporal, a dois anos de prisão. Monique Thomas, também uma mulher trans negra, foi morta em Dorchester em setembro de 1998. A própria Hester tinha dito a um jornal local que temia que uma pena leve no caso Pickett passasse a mensagem de que esses assassinatos eram aceitáveis.

Essa ligação explica a data, embora os relatos variem. A Wikipedia, a Pride Source e a prefeitura de Boston dizem que 20 de novembro é o aniversário da morte de Chanelle Pickett. Alguns históricos curtos, incluindo o da GLAAD, descrevem a primeira vigília como a marca de um ano da morte de Hester, que foi em 28 de novembro. As duas mulheres são lembradas no dia.

Como Gwendolyn Ann Smith começou o dia

Gwendolyn Ann Smith é ativista e escritora trans da região da Baía de São Francisco. Ela contou à NBC News em 2017 que, depois da morte de Hester, conversou sobre o caso na internet com pessoas amigas de Boston e descobriu que nenhuma delas se lembrava de Chanelle Pickett. «Me surpreendeu muito que ela já tivesse sido esquecida, em tão pouco tempo, e ali estávamos nós com outro assassinato no mesmo lugar», disse.

Ela começou a manter uma lista das pessoas trans que tinham sido mortas, que virou o projeto Remembering Our Dead. O próprio site dela situa o início em 1998; a prefeitura de Boston diz 1999. Na primavera de 1999, segundo o relato dela, ela conduziu cerca de 100 pessoas com velas até o Castro Theatre, em São Francisco, onde estava passando um documentário sobre o assassinato de Brandon Teena. Isso a convenceu de que era preciso um dia da memória, e o primeiro aconteceu em novembro daquele ano.

Os relatos divergem nos detalhes. A NBC News, o Boston Globe e a prefeitura de Boston dizem que o primeiro dia aconteceu tanto em São Francisco quanto em Boston; Smith também já o descreveu como um evento no bairro Castro, em São Francisco. A GLAAD dá a Smith o crédito de fundadora, a Wikipedia cita um pequeno grupo que inclui Smith, Nancy Nangeroni e Jahaira DeAlto, e o site da própria Smith diz que ela foi cofundadora.

Os princípios que orientam a organização do dia resumem o seu propósito: lembrar todas as pessoas que morrem por causa da violência transfóbica, porque quem as mata, a polícia e a mídia muitas vezes apagam essas pessoas.

Como o dia se espalhou

Em 2010, a própria lista da organização contava eventos em mais de 185 cidades de mais de 20 países. Já houve vigílias de Dublin, onde a Transgender Equality Network Ireland fez em 2018 uma cerimônia com velas, reflexões e canções, a Jacarta, onde ativistas trans da Indonésia fizeram uma em 2015. Em 2024, grupos do Reino Unido organizaram vigílias que iam do Soho, em Londres, a encontros online para quem não podia comparecer.

Em 2012, Barack Obama se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a homenagear o dia, com uma reunião de ativistas trans na Casa Branca que começou com um momento de silêncio. A província canadense de Ontário aprovou em 2017 uma lei que obriga sua assembleia legislativa a fazer um minuto de silêncio todo 20 de novembro.

O dia também moldou o calendário ao seu redor. A semana anterior virou a Semana de Conscientização Trans, e o Dia Internacional da Visibilidade Trans, em 31 de março, foi criado em 2009 por Rachel Crandall-Crocker, que queria um dia para celebrar as pessoas trans que estão vivas. Nosso guia sobre os dias de conscientização trans e o calendário LGBTQ+ de conscientização mostram como essas datas se encaixam.

Para o 25º aniversário, em 2024, quem organiza o dia em Boston distribuiu os eventos por três dias e incluiu um house ball, para abrir espaço para a alegria trans, e não só para a perda.

Como os nomes são reunidos, e o que os números deixam de fora

Os nomes lidos nas vigílias vêm de listas mantidas por organizações de defesa de direitos e por voluntários, e cada lista conta algo um pouco diferente.

  • No mundo: o Trans Murder Monitoring da TGEU. A TGEU (Trans Europe and Central Asia) acompanha desde 2009 os assassinatos relatados de pessoas trans e de gênero diverso, com base em organizações parceiras, ativistas que fazem pesquisa e notícias da mídia, e atualiza seus números pouco antes de cada Dia da Memória Trans. A atualização de 2025 contou 281 pessoas cujo assassinato foi relatado entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025. Noventa por cento eram mulheres trans ou pessoas transfemininas, 88% eram negras ou racializadas, e 68% dos assassinatos foram registrados na América Latina e no Caribe, uma região que, segundo a TGEU, tem um monitoramento melhor e mais antigo do que outras.
  • Estados Unidos: a Human Rights Campaign. A HRC normalmente encontra os casos acompanhando o noticiário local e as redes sociais, e conta apenas mortes nos EUA causadas por outra pessoa; suicídios não entram na conta. Ela registrou 27 casos no ano até 20 de novembro de 2025, e pelo menos 399 desde que começou a contar, em 2013.
  • Estados Unidos: a Advocates for Trans Equality. O Remembrance Report 2025 da A4TE tem uma visão mais ampla. Entre as pessoas que ele lista, 27 foram perdidas para a violência e 21 para o suicídio.

Então o número que você ouve numa vigília depende de qual lista está sendo lida. Em 2024, a cerimônia de Boston lembrou 319 pessoas no mundo todo que morreram por homicídio ou suicídio.

Todos esses grupos dizem que sua contagem fica abaixo da realidade. A TGEU escreve que muitos assassinatos são relatados de forma errada ou ficam de fora, muitas vezes por causa de misgendering ou de estigma, e que o número real provavelmente é bem maior. Ela também alerta que o número de 2025, menor que os 350 do ano anterior, não significa necessariamente que as pessoas trans estão mais seguras: pode refletir o fato de os assassinatos estarem ficando menos visíveis na mídia.

O misgendering é parte do problema, não só um insulto. O relatório de 2024 da HRC concluiu que 64,3% das vítimas registradas desde 2013 foram inicialmente alvo de misgendering por parte da mídia, da polícia ou do sistema de justiça criminal, e que, mesmo em 2024, o ano com a menor taxa que a organização já registrou, isso aconteceu com 40%. A HRC diz «pelo menos» porque há mortes que não são notificadas ou são relatadas de forma errada, e o misgendering atrasa a identificação. Uma pesquisa em criminologia de Brendan Lantz, divulgada pelo The 19th, concluiu que os assassinatos de pessoas trans nos EUA entre 2010 e 2020 foram solucionados em cerca de 48% dos casos, contra aproximadamente 62% do total de assassinatos, e com frequência ainda menor quando a polícia usava o nome errado.

As listas também podem incluir pessoas que não se diziam trans, mas foram vítimas de violência transfóbica, como observam os próprios materiais da organização do dia.

Os debates em torno do dia

Boa parte do debate sobre o dia vem de dentro das comunidades trans.

Quem entra na lista

Em 2023, o National Center for Transgender Equality, que em 2024 se fundiu com outro grupo para formar a A4TE, ampliou seu relatório de memória para incluir pessoas que morreram por suicídio ou por doença, argumentando que a discriminação encurta vidas trans de outras formas além do assassinato. Elle Moxley, que fundou o Marsha P. Johnson Institute, apoiou a mudança, dizendo que as comunidades trans negras sempre viram a violência como algo maior do que os assassinatos. Smith disse ao The 19th que tinha receio: o dia começou por causa de dois assassinatos, e ampliá-lo dilui essa mensagem, embora celebrações anteriores tenham incluído alguns suicídios causados por assédio transfóbico.

De quem é o dia

A maioria das pessoas nomeadas são mulheres trans, e a maioria é negra ou racializada, por isso há quem critique e pergunte quem deveria conduzir as vigílias. Num ensaio de 2016 para o blog BGD, Princess Harmony, uma mulher trans racializada, escreveu que não suportava a branquitude dos eventos da sua região, onde, segundo seu relato, mulheres trans brancas organizavam o luto por mulheres cujas vidas ignoravam, e pediu a quem lia que lembrasse as circunstâncias daquelas vidas, e não só as mortes. Em 2008, Sarah Lamble, num trabalho acadêmico, argumentou que o luto coletivo pode permitir que as pessoas brancas presentes se sintam inocentes da violência, e defendeu a passagem do testemunho para a ação. Mirha-Soleil Ross, que atua como ativista, criticou quem organiza as vigílias por apresentar como mártires da comunidade trans pessoas trans profissionais do sexo assassinadas em Toronto por causa do seu trabalho.

Luto ou vida

Algumas pessoas criaram outros dias ao lado dele. O grupo BreakOUT cunhou em 2015 o Transgender Day of Resilience, para tirar o foco das mortes trans e colocá-lo na sobrevivência. E, para as famílias, o dia não acaba: Diana, irmã de Rita Hester, contou ao The 19th que jornalistas e ativistas ligavam todo mês de novembro, e que a família acabou deixando de ir às vigílias.

Como ir a uma vigília ou organizar uma

As vigílias costumam ser organizadas por ativistas trans locais ou grupos LGBTQ+, em centros comunitários, parques e locais de culto. Um grupo trans ou um centro LGBTQ+ da sua região vai saber o que está acontecendo perto de você; como encontrar um grupo de apoio trans traz alguns pontos de partida.

Se você for

  • Faça silêncio durante a leitura dos nomes. É o centro da noite.
  • Use os nomes como a organização os apresenta. Nunca vá atrás do deadname de ninguém, e nunca o repita.
  • Peça antes de tirar fotos. Algumas pessoas ali não podem ser vistas num evento trans. Deixe os rostos de fora de tudo o que você publicar, a menos que as pessoas concordem.
  • Planeje a volta para casa. A organização de uma vigília de 2024 em Newcastle upon Tyne, na Inglaterra, recomendou que as pessoas voltassem em duplas, contou com community wardens (agentes comunitários) para lidar com quem passava pela rua e pagou táxi para quem se sentisse mais em segurança indo embora assim.
  • Fique em casa se precisar. Algumas vigílias são online; em 2024, uma vigília online do Reino Unido decidiu não mostrar um vídeo com os nomes, porque algumas pessoas acham isso angustiante.

Se você organizar uma

A GSA Network publica uma lista de verificação adaptada dos materiais da própria organização do dia. O essencial, com exemplos de vigílias recentes:

  • Monte uma equipe e um plano. Trabalhe com outros grupos locais e garanta que pessoas trans negras e racializadas deem forma à noite, e não apenas apareçam na lista de nomes.
  • Diga de quem é a lista que vai ser lida, e se ela inclui suicídios, para que ninguém seja pego de surpresa.
  • Prepare-se para a hostilidade. Façam uma reunião antes para combinar como lidar com assédio, e tenha voluntários suficientes para montar, vigiar e desmontar. Uma vigília de 2023 em Grand Rapids, Michigan, contratou uma empresa de segurança local que pertence a pessoas queer; a vigília de Newcastle fechou um portão depois que todo mundo chegou.
  • Garanta a acessibilidade. O anúncio de Grand Rapids prometia acesso sem degraus, pedia que as pessoas não usassem perfume e estava providenciando interpretação em língua de sinais.
  • Abra espaço para o luto. A GSA Network sugere uma sala silenciosa onde as pessoas possam ir para conversar ou ficar sozinhas, e uma mesa com informações sobre apoio na região.
  • Termine falando das pessoas vivas. Agradeça a quem veio e indique formas de apoiar pessoas trans no resto do ano.

Cuidando de você

O dia é difícil até para quem o construiu. Smith disse à NBC News que ler como as pessoas foram mortas, e reconhecer partes de si nessas histórias, pode ser muito difícil de suportar. Rachel Crandall-Crocker, que depois fundou o Dia Internacional da Visibilidade Trans, já disse que os eventos de memória de que participava podiam deixá-la deprimida por até uma semana.

Você não precisa ir, e não precisa ler os detalhes de cada morte para homenagear alguém. Planeje algo tranquilo para depois, e alguém para quem mandar mensagem. Pode ajudar se apoiar numa história que não é só de perda: mulheres trans e drag queens enfrentando a polícia na revolta da Compton's Cafeteria, em 1966, ou Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson abrindo a STAR House, no início dos anos 1970, para pessoas que precisavam de um lugar para ficar.

Se você precisar conversar com alguém:

  • Trans Lifeline (EUA e Canadá) é uma linha de apoio entre pares mantida por pessoas trans: (877) 565-8860 nos EUA, (877) 330-6366 no Canadá, de segunda a sexta, das 13h às 21h no horário da Costa Leste (Eastern Time). A linha diz que não aciona os serviços de emergência sem o seu consentimento.
  • Switchboard (Reino Unido) é uma linha de apoio LGBTQIA+ gratuita, atendida por voluntários, no número 0800 0119 100, das 10h às 22h, todos os dias.
  • Em outros lugares, um grupo trans ou um centro LGBTQ+ local pode indicar apoio perto de você. Se você estiver em perigo imediato, entre em contato com os serviços de emergência locais.

A linha direta da Trans Lifeline estava na lista de fechamentos programados para o Dia da Memória Trans de 2025, então pode estar fechada no próprio dia. Confira o horário no site da Trans Lifeline antes de 20 de novembro.

Wren · Redação

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